Opinião
No reino de Lear
| Marcos Davi Melo * A peça Rei Lear de Shakespeare, foi encenada pela primeira vez no Teatro Globe em Londres, no mesmo dia da publicação de Dom Quixote. Além disto, é uma tragédia atemporal. Lear, pai de vários filhos, poderoso e magnânimo, com eles divide o seu reino e distribui todas as suas riquezas, com exceção de Cordélia, a filha mais amada, motivo da inveja e da rejeição dos irmãos. O poder e a riqueza, entretanto, fazem mal aos filhos. Tornam-se violentos e corruptos, sedentos por mais e mais poder, aniquilam-se entre si. Ao fim, sacrificam o velho rei, que sozinho e entregue às baratas, se vê miserável e só, digno da compaixão apenas de Cordélia, que ressurge das masmorras, para onde tinha sido condenada pelos irmãos, apenas para morrer nos braços do pai no primeiro reencontro. No reino de Lear tropical, é ululantemente óbvio que a principal razão para o País não crescer ? e, portanto não ter empregos para uma legião de jovens que sem perspectivas, caem na marginalidade, assaltam, seqüestram, matam e ameaçam a todos nós diariamente ? é o gasto público descontrolado, que exige impostos e juros altos e entrava o País. Existem exemplos de renúncias ou mesmo protelações de interesses pessoais ou corporativos por parte das autoridades? Não, muito pelo contrário. O Legislativo manobra para dobrar os subsídios de seus membros, com as inevitáveis cascatas de aumentos nos legislativos estaduais e municipais por todo o País. O Judiciário também quer aumentar os já gordos proventos com conseqüências semelhantes. O Executivo perdulário e descontrolado, faz jogo de cena e alardeia querer conter a volúpia destes, mas não dá o exemplo nem tem ascendência moral sobre os outros poderes. Um reino de insânia, ganância e irresponsabilidade. A descrição do sofrimento em Rei Lear tem sido comparada ao padecimento de Jó. Em termos de concepção geral, bem como em grande parte de sua textura irônica, Lear está próxima do ceticismo do Eclesiastes. Lear, no final, desesperado, grita: ?Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!?. Ainda completa: ?Ao nascer choramos, porque chegamos a este grande palco de loucos?. Shakespeare é eterno e parece que se inspirou no Brasil atual. (*) É médico e professor da Uncisal.