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Opinião

O fundamentalismo

| Dom Fernando Iório * Lê-se, no livro do Gênesis (6, 5-6), que Deus “se arrependeu de ter criado o homem”. É lógico que, real e teologicamente, Deus não se arrepende, por ser imutável. Trata-se de conhecido antropomorfismo nunca interpretado, ao pé da l

Por | Edição do dia 28/11/2006 - Matéria atualizada em 28/11/2006 às 00h00

| Dom Fernando Iório * Lê-se, no livro do Gênesis (6, 5-6), que Deus “se arrependeu de ter criado o homem”. É lógico que, real e teologicamente, Deus não se arrepende, por ser imutável. Trata-se de conhecido antropomorfismo nunca interpretado, ao pé da letra. Entretanto, assevera o fundamentalista: “Deus se arrependeu porque está escrito na Bíblia”. Fala a sagrada escritura de uma corrupção generalizada, na face da terra, a saber – um desvio do caminho para Deus em busca da auto-suficiência, buscando o ser humano a autodestruição. E Deus mandou o dilúvio que cobriu toda a face da terra. Toda a face da terra vem a significar – o horizonte geográfico habitado pelo ser humano e não a terra toda. Surge o fundamentalista, afiançando: foi a terra toda, assim expressa a Sagrada Escritura. Certamente, não podemos fazer leitura alguma “fundamentalista” da palavra de Deus, a não ser em algumas expressões vi verborum, mormente no sacramento da Eucaristia. Para o fundamentalista se está escrito que Deus fez o mundo em seis dias é porque foi elaborado em seis dias. Não dá para dialogar com o fundamentalista, porque só ele é dono da verdade, sabe o que é certo. Não leva o fundamentalista em conta a mentalidade que havia no tempo em que o texto bíblico foi estruturado, nem considera o progresso científico realizado em torno do íon (dia) bíblico. Outro apoio fundamentalista é o hebraísmo. Os hebraísmos são expressões próprias da língua hebraica, sem tradução em qualquer outro idioma. Sirva-nos de exemplo: “Se alguém vem a mim e não odeia pai e mãe, mulher, filhos, irmãos, irmãs e até a própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc. 14,26). No texto, “odiar” não traduz o nosso odiar, senão o desapego total. Tanto é verdade que a Bíblia ordena que “amemos o pai e a mãe” (Ex. 20,12). O mesmo se diga da expressão “irmãos de Jesus”. Tenha-se em vista que o verbete da coiné diálectos – adelfós – significa, também parentes, primos e não somente irmãos. Narra a escritura sagrada que os patriarcas tiveram vida longa: Set viveu 912 anos; Jared, 962; Matusalém, 969; Lamec, 777 anos. Essas idades avançadas não significam quantidades matemáticas, senão algo qualitativo. Na linguagem bíblica, longa vida significa “vida abençoada”. Interpretação diferente daria o fundamentalista. (*) É bispo de Palmeira dos Índios.

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