Opinião
De repente, ele vem
Dom Fernando Iório * De repente, muito de repente, desponta o Advento, na espera do menino de Belém, anunciando o novo ano da liturgia da Igreja: o Ano C, de 2007. Muito mais que de repente, repentinamente, surge o Advento, engravidando o verbo de Deus no tempo, através do ventre sagrado de Maria de Nazaré. Nascido em Belém ? Cidade do Pão ? Ele que se define ?O Pão da Vida?, como afirma a ?Gaudium et Spes?: ?... trabalhou com mãos humanas, pensou com inteligência humana, agiu com vontade humana, amou com coração humano. Dificilmente, poder-se-ia afirmar, de maneira tão incisiva e compreensível para os homens e mulheres de hoje, o que significa a lei da encarnação. Os quatro verbos: trabalhar, pensar, agir, amar ? cada um deles acompanhado pela menção às respectivas faculdades ou instrumentos de atuação ? mãos, inteligência, vontade, coração, seguidos, vez por vez, pelo qualificativo humano/a, conferem à assertiva aquela densidade encarnadora marcante. A proposição final ?tornou-se um de nós?, conduz a referida densidade a seu mais alto grau. Lida em profundidade diz, de maneira compreensível para nossos tempos, o que proclamou o Concílio de Calcedônia à sua maneira e com suas categorias de expressão, ao definir Jesus Cristo como ?perfeito em humanidade?, que poderíamos traduzir por ?homem pleno?, verdadeiramente homem?, com tudo quanto isso implica. Estamos evidenciando que Jesus de Nazaré ? a Quem, na fé, confessamos como Senhor, Messias e Filho de Deus, sendo realmente um de nós ? passou por todas as etapas biológicas, psicológicas, sociais e religiosas ? pelas quais caminha, normalmente, todo ser humano. Marcadas, naturalmente, pelas circunstâncias do lugar e do tempo, em que viveu em nosso mundo. Nosso Salvador não nasceu maduro, nem corporal, nem psiquicamente, por isso necessitou ir crescendo, ?em sabedoria, em estatura, em graça?, como recorda São Lucas (2,52). Pensar o contrário significaria negar que era ?um de nós, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado?, como recorda a ?Gaudium et Spes? (n. 22b), fazendo eco à Carta aos Hebreus (4,15). Para atingir a maturidade teve de passar, humana e religiosamente, por um processo de educação em que exerceram papel preponderante os diversos agentes responsáveis: a família, a escola, o ambiente social. Por ser verdadeiro homem, viveu os limites do ser humano. Não fizeram dEle os evangelistas uma espécie de super-homem, invulnerável às vicissitudes da vida. O homem Jesus não usou da linguagem conceitual e argumentativa, senão do processo metafórico para expressar o sonho que alimentava de realizar o Seu Reino. Reino de justiça, de paz, de amor. (*) É bispo de Palmeira dos Índios.