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Opinião

O homem carcomido

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| Sérgio Costa * Presente na história da humanidade desde os seus primórdios, a corrupção política vive sua fase áurea no nosso País. Mas, quando aqui chegou, era menos arrogante, romântica, eu diria. Lembro-me de ter escutado pequenas travessuras maquinadas por um ex-secretário de obras de um de nossos municípios. Graças à omissão dos órgãos fiscalizadores, o nosso ?criativo? secretário usou a inocência e a dependência dos garis para juntar uns cobrinhos a mais. Como sabemos, apesar de desempenharem exaustiva e imprescindível tarefa, nossos garis sempre foram mal remunerados. Entretanto, na gestão do tal secretário, um fato curioso chamou a atenção da sociedade. A maioria deles varria as ruas portando os famosos relógios Mido. O bom senso dizia que algo estava errado. Mas o mistério só foi desvendado nas mesas de um bar, muito longe dos tribunais. É aquela história, todo mundo sabe, menos a justiça! No início, as palavras tropeçavam inseguras, mas as extravagantes e sucessivas doses de pinga com limão forneceram energia e coragem para um dos garis botar a boca no trombone. Segundo seu depoimento, o secretário ofereceu-lhe o relógio e disse que só precisava pagar depois. ? Eu num posso pagá dotô. O saláro num dá nem pra matá a fome dos meus oito fios, da minha muié e da minha cadelinha Piaba! ? Pode sim, homem de Deus, mesmo porque a venda não é à vista. E não precisa se preocupar com os juros, ponderou o secretário. O gari não mexeu a língua. Mas os olhos arregalados pareciam querer saltar das órbitas. O secretário não desistia. Tudo bem, prometo que vou lhe ajudar. Mas tenho um pedido besta a lhe fazer. Você e sua família vão votar em mim para vereador nas próximas eleições. ? Isso num precisava nem pedi, dotô. Só num seio cumo fazer a Piaba votá! Já impaciente com a ignorância do gari, o secretário resolveu abrir o jogo. ? Preste bem atenção! No fim do mês eu registro no seu cartão de ponto horas extras que você nunca trabalhou. Você assina os recibos e eu fico com o dinheiro das prestações. Ok?! Todo desconfiado, o nosso resto de cidadão perguntou: ? Mas isso num é perigoso não dotô? ? Agora já é perigoso você não ficar com o relógio, sentenciou o secretário, preocupado que a trama não se espalhasse. Com medo de contrariar o chefe, perder o emprego e, provavelmente, ainda ir para a cadeia, o pobre trabalhador foi obrigado a aceitar a indecente proposta. (*) É contador.

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