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Sobre o verde e o maduro

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| Anilda Leão * Quando a gente tem uma vida toda pela frente, quando ainda estamos no verdor da idade, os fatos do cotidiano e o suceder dos acontecimentos do dia-a-dia tomam um aspecto todo especial, que a própria idade se encarrega de dirigir para caminhos mais amenos, mais cheios de fantasia e até de felicidade. Amadurecer, porém, também pode ter algo de maravilhoso, principalmente quando sabemos colocar os pés na terra sem que tornemos chãs as nossas almas. Olhar a vida por um prisma que os olhos jovens jamais podem vislumbrar sem, contudo, nos sentirmos velhos ou incapacitados diante dos valores maiores da vida. Se nos verdes anos tudo parece fácil, bom e gostoso, é por que ainda há todo um mundo por conhecer, explorar e sentir. Nos tempos maduros já não podemos negar o que conhecemos, como devemos nos portar e agir, justamente porque já acumulamos experiências, já pisamos todos os tipos de terreno. A vivência, muitas vezes sofrida e cheia de decepções, é justamente a mais fértil, a que mais ensina. Daí não ser possível, para mim, entender alguém que se vangloria de jamais ter sofrido na vida, que se acha muito sábio, por exemplo, por jamais ter amado alguém verdadeiramente e não ter passado pelos inevitáveis desenganos e decepções trazidos pelo sentimento do amor. Pessoas assim que também se consideram blindadas contra as crises que se multiplicam pelo mundo, como as guerras e hecatombes naturais, como ver crianças a morrer de fome tão perto de nós sem nos apiedarmos delas, e de nós mesmos, por que não? São criaturas tão egoístas, que não participam da vida e que, fugindo das situações que para elas são de risco, nem imaginam o quanto estão perdendo de vivência. Até que ponto esfacelam a própria personalidade, a própria alma. Como estão sendo fracos, covardes, inúteis. Que viver é lutar, é sofrer e é chorar também. Para poder seguir e vencer. Os verdes anos são anos bons, são as primeiras experiências, as descobertas, os primeiros sonhos. Que muitas vezes depois se esfumam, desaparecem. O amadurecer, não. É o que fica, o que permanece. É saber o que se quer, e como querer o que se quer. São sentimentos que chegam e não passam, perenizam-se a espera do fim do tempo que nos foi concedido. É isso aí. É nessa fase em que me encontro. Até quando Deus quiser. (*) É escritora.

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