Opinião
Atoleiro ou caos? (1)
| Eduardo Magalhães * Incrustada num paraíso de águas cristalinas e plenas, banhada por um mar delicado em vestes ondulantes de um azul turquesa com detalhes esmeralda, encontra-se Alagoas em tal nível de decadência e precariedade que esta realidade por si só já se constitui num desafio extraordinário que exigirá da administração do governador Teotonio Vilela Filho um esforço sobre-humano para lograr o sucesso desejado e esperado pelo povo alagoano. Em entrevista ao Valor Econômico referindo-se à situação de Alagoas, o governador eleito declarou que estava ?disposto a tirar Alagoas do atoleiro?. Tirar ou sair do atoleiro significa ?livrar-se de situação difícil ou perigosa? (Novo Aurélio, p. 195). Não tem nada a ver com lama, mas significa uma realidade que por muito tempo insistimos em esconder ou maquiar. A ladainha de mazelas de Alagoas estende-se de forma quase interminável e desoladora. Dados oficiais do PNAD/IBGE (1992-2004) demonstram que o Estado de Alagoas é o mais pobre do Brasil. Tem a menor renda real mensal média (R$219,00 em 2004) e a maior proporção de pobres (quase 60%). Em termos comparativos, a renda média mensal do alagoano está 17,6% abaixo da média nordestina e 52,6% abaixo da renda média mensal brasileira. Um desempenho econômico pífio nos últimos anos deixou Alagoas para trás, em termos tanto de capital humano quanto de infra-estrutura o que representa o cerne do desafio para fincar propostas, projetos e programas capazes de dar vida às chances de reversão desse quadro no futuro. O crescimento de Alagoas foi praticamente nulo desde o início da década de 90 com uma queda ininterrupta da renda real média (28,5%). A desigualdade de renda tem caído de forma consistente desde 1995. Durante esse período, o índice de Gini do Estado passou de 0,65 para 0,58. A relação entre a fatia da renda apropriada pelos 20% mais ricos e a dos 20% mais pobres diminuiu de 26,8 para 21,8 e a participação do 1% mais rico na renda total passou de 17,1 para 15,1. Ainda assim, Alagoas continua com uma concentração de renda ainda maior que a do conjunto do País, qualquer que seja o indicador. Apesar dessa queda da desigualdade, o pífio desempenho da economia faz com que a proporção de pobres seja praticamente a mesma que em 1992, antes do Plano Real (62,5% em 2004 contra 63,4% em 1992). Para completar, os dados do PNAD/IBGE mostram que 1/3 da população de Alagoas vive em situação de extrema pobreza, o que justifica o seu tristonho IDH de 0,633, no mesmo nível de países como o Gabão (0,635), Marrocos (0,631) e Namíbia (0,627). (*) É professor da Ufal.