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Opinião

Os olhos de Lucas

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ANGELA CANUTO * Gostaria de falar sobre o Lucas em um momento mais feliz. Contudo, diante da violência injusta e covarde que o atingiu, sinto a necessidade de dizer, a ele e a todos, que é preciso não sucumbir às agressões sofridas. Consciência tenho de que certas vezes os desafios com que a vida nos surpreende parecem muito maiores do que somos. Nestas situações, chegamos a imaginar que a truculência do instante vivido será capaz de nos devorar. É então que pessoas como Lucas renascem fortalecidas. Da dor, floresce a energia necessária para persistir em luta por um mundo melhor e mais digno. E esse mundo, despercebido pelos olhos cansados daqueles que se acham vencidos, está sendo hoje construído por jovens como Lucas. Impressionou-me quando, no apartamento de sua mãe, Leda Almeida, intelectual comprometida com a socialização da cultura e da literatura em nosso Estado, conheci este estudante de Direito da Ufal, destacado aluno, monitor e conhecedor da música erudita. Tímido e educado, manifestou algumas opiniões a respeito dos mais variados assuntos. Definitivamente, eram opiniões de um quase-menino construtor da vida. Nada de malícias, de subterfúgios. Meigo, de olhos límpidos, claros e sonhadores... sonhos que nunca se deixaram contaminar pela corrupção e pela maldade. Eis, que sem nenhuma explicação ou motivo (por mais fútil que pudesse ter sido), Lucas foi covardemente agredido, dias atrás, por uma verdadeira gangue composta por jovens de classe média. Apesar do caso ter sido devidamente registrado na instituição policial competente, o fato não tem como ser menosprezado e discuti-lo é democratizar uma preocupação com a sociedade em que vivemos. A violência assacada contra Lucas deve despertar (acordar) as autoridades políticas e policiais e todos os cidadãos alagoanos para este tipo de terror que, pasmem, não advêm de pessoas pobres, sem oportunidade. Não há, portanto, razões históricas ou sociais que possam nos confortar diante de tamanha injustiça. São necessárias, urgentemente, medidas punitivas contra os agressores desse tipo, para que tristes fatos, como este, não tirem a tranqüilidade da população alagoana - ordeira e pacífica, em sua maioria. O Lucas-vítima de amanhã poderá ser o filho de cada um de nós. Não pode haver complacência com a violência. Não há que existir tolerância para quem desrespeita o outro. A agressão sofrida por esse estudante de Direito chega a ultrapassar os traços particulares da sociedade medieval. O que desejam essas pessoasque cultivam a violência? Demonstrar abuso de poder? Lucas tem voz. Ferido de corpo e alma, gritam por ele os seus familiares e amigos. Que esse grito não se cale no ar. Que o sofrimento de sua família seja minorado pela certeza de que é melhor sofrer uma injustiça do que cometê-la E que nós alagoanos façamos uma cruzada contra a impunidade que norteia a nossa terra e, como Sísifo, personagem mitológico condenado pelos deuses a carregar uma imensa pedra até o topo da montanha, para vê-la sempre despencar ladeira abaixo, não cruzemos os braços. Que esta metáfora nos sirva para uma tarefa interminável, sempre inacabada. (*) É MÉDICA

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