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Eu tive um sonho...

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| André Weinmann Carneiro * Certa vez alguém me disse que sonhava colorido. Quando tento me lembrar dos meus sonhos não me vêm cores, nem mesmo preto e branco. Acho que meus sonhos não têm cor. Para muitas pessoas os sonhos são percebidos de forma tão clara que até parece que a pessoa está com os olhos bem abertos tendo a nítida visão dos acontecimentos que involuntariamente se apresentam à mente durante o sono. Nos meus sonhos eu não percebo com a visão, eu sinto! Sinto a presença, sinto o sabor, sinto o colorido... é saber quem está ao lado, se o que está posto à mesa é uma suculenta picanha ou um delicado fios de ovos, se a estação do ano é a primavera ou o outono, se estou agasalhado ou de calção, se ando descalço na areia ou de sapato no asfalto... tudo isso sem ver, sem imagem! Eu tive um sonho... não sei bem qual a época, que idade eu tinha, nem mesmo se era esse ?eu? que estou acostumado a ver no espelho, só sei que lá eu estava, que por lá eu andava. Não tinha rumo certo ou um projeto preciso, apenas perambulava. Não sei se era campo ou cidade, se as construções eram no estilo barroco, moderno ou futurista, isso eu não consegui perceber. Sei que tinha pessoas, muitas pessoas, e estavam em movimento. O que me chamou atenção foi eu não estar inquieto com a aglomeração, não sentir o incômodo que me causa o aperto do estádio em dia de decisão ou das calçadas de nossas cidades que a tudo prestam menos ao caminhar. Desta vez não! O que eu sentia não eram os esbarrões tesos, eu não era atropelado nem pisoteado, ao contrário, o que eu sentia era bom! Sabem aquela brisa amena que acaricia nosso rosto em uma noite quente de verão ou o calor emanado da lareira nas noites frias do inverno? Pois bem, era mais ou menos assim. Mas, não era apenas estar tranqüilo na multidão, era mais: não sentia rancor, mágoa, pressa, medo, insatisfação... nem em mim nem nos outros; não sentia a fome, a miséria, a doença... que teimam em queimar a nossa visão enquanto transitamos acordados pelo mundo; não sentia as guerras nossas de cada dia... estávamos todos em harmonia! Neste ponto fui vítima de minha própria armadilha... vou explicar: desenvolvi um sistema de defesa anti-pesadelo que ao menor sinal de agitação ou opressão durante o sono me faz acordar e não é que, mesmo absorto em felicidade, por um milésimo de segundo duvidei da possibilidade da existência aqui na terra de tamanha harmonia, pensei que estava morto e... acordei! (*) É analista de Sistemas de Informação. ([email protected]).

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