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Opinião

A travessia

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| Marcos Davi Melo * O poeta Virgilio, celebrou o amor em versos sôfregos, mas também descreveu a morte, estes dois inevitáveis temas da literatura. A região onde Virgilio localiza a entrada do inferno é a região vulcânica do Vesúvio, toda cortada de fendas, das quais se levantam chamas sulfúreas, enquanto o solo é sacudido pelo desprendimento de vapores e ruídos estranhos saem das entranhas da terra. O centro do vulcão e, portanto, a entrada do inferno é ocupada por um lago de águas profundas e negras, de onde vapores mefíticos levantam-se continuamente e onde nenhuma ave sobrevoa. Ali, segundo o poeta, encontrava-se a gruta que dava acesso às regiões infernais, por onde Eneias desceu até chegar à margem de um rio de águas turvas e revoltas, cuja margem oposta só era acessível através do bote do barqueiro Caronte, que atendia ansiosos passageiros de toda espécie ? heróis magnânimos, jovens e virgens, que naqueles tempos existiam ?, mas transportava somente aqueles que escolhia, empurrando os outros para trás. Espantado, Eneias perguntou: ?Qual o motivo desta discriminação??. A resposta que ele recebeufoi: ?Aqueles que são acolhidos a bordo são as almas dos que receberam os devidos ritos fúnebres; os espíritos dos outros, que ficaram insepultos, não podem passar o rio, mas vão vaguear cem anos abaixo e acima de sua margem, até que finalmente sejam levados?. Até no inferno de Virgilio existiam saídas para as situações mais constrangedoras. Devem existir saídas também para Alagoas, que está envolta nas labaredas infernais do atraso e da violência. As colocações do governador eleito, Téo Vilela, soam como um desabafo coletivo, um bramido que vêm do âmago da terra sofrida, do profundo do peito da sociedade empobrecida e desiludida e que aspira por algo diferente, que semeie um pouco de esperança. Embora venenosa no inferno grego, ainda existia água, líquido que aqui, pela falida Casal, ameaça faltar em nossas residências. Outros serviços vitais, também entre nós são muito precários. O que os alagoanos anseiam, é que o barqueiro Caronte tenha piedade de todos os que não se beneficiaram dos cofres públicos, nem contribuíram para o calamitoso atraso de nossa terra e os levem à margem oposta da miséria e da mediocridade, que envergonham o nosso presente e ameaçam o futuro de nossos filhos. (*) É médico e professor da Uncisal.

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