Opinião
70 Anos de ang�stia
| Teomirtes Barros Malta * O romance ?Angústia?, de Graciliano Ramos, comemorou 70 anos de existência. Publicado em 1936, o livro transmite a mensagem universal do homem angustiado, escritor acuado pelo mundo que o cerca. O enredo é aparentemente simples. Luís da Silva, personagem central da narrativa, convalescendo de um profundo abalo nervoso, faz uma análise de tudo quanto lhe aconteceu. Assim, os fatos vão surgindo em recordações fragmentadas: a decadência da família, o avô que tomava pileques e seu indolente pai com o nome já reduzido, Camilo Pereira da Silva. Depois, os dias errantes que se sucederam, a cidade e a rotina mesquinha de cada um. Então ele faz uma autocrítica, achando-se ?um bicho?, ?uma coisa?. Na mediocridade em que vive, um fato novo surge: o envolvimento com Marina, sua sensual vizinha. Logo depois, descobre a traição da jovem com o rico proprietário Julião Marques. Desesperado, surgem o ciúme e a neurose que o levam a um caminho certo: a morte do rival. Eliminando-o, destruirá também a opressão, a indignidade, o espaço absoluto do outro. Após concretizado o ato, constata que tudo fora inútil. Continuaria mergulhado na mesma solidão e desespero de antes. Agrava-se sua crise e então cai num prolongado processo de alucinação. Desejando voltar ao controle da consciência, apega-se a uma réstia de sol, que ?descia pela parede, viajava em cima da cama, saltava no tijolo?. Isto lhe traz a sensação de que o tempo não havia parado. O relógio estava mudo e sua vida continuava esvaziada. A réstia de luz dividia seu tempo em dia de tristeza e noite de solidão. Através dela, o mundo tomava formas, mas de uma maneira limitada e hostil. No universo conflituoso em que vive, o personagem Luís da Silva, não conhece Deus, nem o amor. Se não houvesse a traição de Marina talvez a paisagem humana fosse diferente. No contexto do livro ?Angústia? não existe o herói mítico a-histórico do romance tradicional. Na focalização discursiva, o autor empregou o procedimento típico do romance moderno, a visão ?com?, em primeira pessoa. Como técnica de vanguarda, o monólogo interior substitui a narração épica tradicional. Em seu contexto, o livro apresenta a dialética do homem, (problemática ) e do mundo (absurda). A obra de Graciliano é universal. Por meio de uma crítica realista, retrata com maestria os diversos aspectos da natureza humana. Na sua solidão, surge a essência da narrativa. E nisto consiste a beleza de sua obra, tornando-a sempre presente. (*) É membro da Academia Alagoana de Letras.