Opinião
Biombo do atraso - Editorial
Muitas lições devem ser aprendidas nesta caótica realidade do sistema aéreo brasileiro. Dentre os ensinamentos abertos pelo caos nas filas de embarque, deve ser destacado o fato de que não bastam modernos e caríssimos aeroportos para que o Brasil venha a ter um sistema eficiente de transporte aéreo. Se tem um setor, no Brasil, que não pode reclamar de investimentos e no qual foram despejadas fortunas nos últimos anos, este é o segmento aeroportuário. Proliferaram nos últimos dez anos, em todo Brasil, aeroportos internacionais. Alguns foram reconstruídos, outros construídos totalmente. E, com todas essas maravilhas da arquitetura, da engenharia e da alta tecnologia em pleno funcionamento, a ineficiência atingiu seu pico máximo. Multidões de candidatos a passageiros, impugnados em seus sonhos de viagem, espalharam-se pelos pisos de mármores e granitos dos saguões, frustados em seus embarques. Vários dormiram no chão, outros mal acomodaram-se em cadeiras inapropriadas para o sono e/ou longas esperas. Decepção, raiva, trocas de insultos entre funcionários e passageiros, essas estão sendo cenas recorrentes. E os responsáveis garantem que a questão será resolvida amanhã. Infelizmente, para os passageiros, o dia congelou no ontem. Por que toda essa balbúrdia? Tudo aponta para erros primários no planejamento. Sem estratégias articuladas, torraram-se cifras faraônicas em monumentos de concreto e vidro e menosprezaram a valorização dos recursos humanos. O engessamento da categoria dos controladores de vôo é apenas a ponta do iceberg do atraso. Por baixo da modernidade arquitetônica e tecnológica continuam enraizadas noções retrógradas e corporativas. Deste momento de caos, deveria ser extraída a lição de que a modernidade de fachada é um biombo frágil, vulnerável.