Opinião
Reconcilia��o outro nome do Natal
| Dom Fernando Iório * Natal 2006. Nossas alegrias e emoções se embrulham nos papéis coloridos de presentes ou nos símbolos natalinos. De certa maneira, tornou-se o Natal do Menino-Deus o aniversário de todos nós que nele cremos. Presenteamo-nos. Nunca tantos aniversariaram num dia só. E o lamento de muitos torna-se público: tornou-se o Natal um verdadeiro comércio. Mas será que o Natal é tão somente comércio? Parece-me, entretanto, que em um mundo competitivo, eivado de conflitos, em diferentes partes dos continentes, onde as vítimas são, em grande maioria, civis inocentes ou povos irmãos; em um mundo circundado de rixas, de rivalidades, de lutas, de indiferenças procuram as criaturas humanas reconciliar-se, dispõem-se em diminuir as arestas que as impedem de se abraçarem, de se aproximarem umas das outras, através de presentes, de ofertas. Ninguém, mais do que uma criança, nos conduz à paz; nada mais do que os olhos puros e cândidos de um inocente e as mãozinhas trêmulas de um bebê, querendo agarrar o mundo que não conhece, convidam-nos ao abraço da reconciliação. O grande desafio da reconciliação apresenta-se, hoje, no contexto de um mundo que experimenta, por um lado, o processo da globalização e, por outro, aquela paradoxal fragmentação generalizada que o conduz à instabilidade e à insegurança sociais. Através de dádivas mútuas, no nascimento de Jesus, muitas muralhas de ódio e paredes de desencanto são derrubadas: maridos aproximam-se de seus verdadeiros lares, filhos de seus pais, operários de seus patrões, amigos de seus companheiros, mesmo tratados como amigos secretos. Com os presentes natalinos, embrulhamos, de certo modo, a nossa reconciliação, a nossa paz, o nosso perdão, tudo quanto desfaz os conflitos, as incompreensões, dentro da família, da comunidade, dentro das repartições, dentro de nossos Clubes, de nossos movimentos. Natal não é tanto tempo de comércio, quanto, e muito mais do que isso, ocasião de construir a paz, de restabelecer a reconciliação. Penso e jamais deixarei de pensar que reconciliação é o novo nome do Natal. Trata-se daquela necessidade psicológica de fazer catarse, de expelir tudo quanto é nocivo no interior do ser humano. Basta dizer que o presente natalino é um precioso cairós, capaz de fazer brotar cada faceta do nosso amor em busca da reconciliação, do abraçar perdoando. Poderíamos, agora, parafrasear uma canção carnavalesca: ?Vou abraçar-te agora, não me leve a mal, hoje é Natal?. (*) É bispo de Palmeira dos Índios.