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Cochichos de invejosos

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| Ronald Mendonça * Pouco afeito aos meandros do poder, não consigo imaginar muito bem o que se passa na cabeça de um auxiliar do governo ? desses que entram pobres e saem ricos ?, após quatro, ou oito, anos de esquemas para extrair o máximo do erário em benefício pessoal. A curiosidade é que os caras entram mais ou menos ingênuos, mas dentro de pouco tempo ganham PhD em safadeza. De longe, ocorre-me que o sujeito agarra-se ao cargo como um cachorro faminto a um osso, e não quer largar em nenhuma hipótese. Se dependesse dele, entrava e saía governo e ele ali, mamando. O sonho é ser substituído pelo filho para perpetuar a esculhambação. Há exceções. Na minha infância, por exemplo, conheci um cidadão que ocupou uma secretaria importante. Lembro que um carro oficial ia apanhá-lo e levá-lo de volta, despertando a curiosidade dos habitantes do bairro. Ainda hoje guardo de cor o número da chapa. Por alguma razão, um dia perdeu o cargo, voltando a andar de bonde e lotação, como qualquer um. Acho até que morreu na mesma casa de porta e duas janelas. (Quando conto essa história, não faltam vozes para chamar o pobre homem de idiota). Uma coisa parece certa: nessa quadra ninguém receia ser desmoralizado, processado, muito menos preso... Devolver o dinheiro afanado, nem pensar. É a grana mais one way do mundo. Como já se disse, nesses expedientes não há cheques, recibos, notas promissórias ou firmas reconhecidas. Não é por acaso que os espertinhos morrem de rir quando se fala em auditorias. Aqui e acolá, numa roda de restaurante, um cochicho de invejosos, risinhos de deboche, mas nada que empane o brilho das contas no exterior, da casa de veraneio, do terreno na beira da lagoa, de automóveis importados, dos apartamentos equipados à beira-mar. É o milagre da multiplicação de um salário de seis mil reais que nem Jesus ousou realizar. De certa forma, é surpreendente que gente como Maluf e mais uns gatos pingados ainda sejam admoestados. Talvez pelo volume do dinheiro desviado ou, quem sabe, por perseguição política... O fato é que, pelo menos entre nós, não me lembro de ter visto ninguém ficar acuado por malversação de dinheiro público. Por virtude, defeito ou simples sinal dos tempos, a sociedade habituou-se a tolerar e afagar esses tipos. Daqui a três dias, teremos um novo governo em Alagoas. Entre os secretários anunciados há pessoas de reconhecido valor. Que Deus as proteja de todas as tentações. Amém. (*) É médico e professor da Ufal.

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