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Opinião

Passagem de ano

| Marcos Davi Melo * O primeiro réveillon é como o primeiro sutiã, a gente não esquece. Era adolescente e a família se reunia em torno da figura de meu avô materno, um pacato evangélico da antiga igreja Presbiteriana da Rua Dias Cabral, onde virávamos o

Por | Edição do dia 31/12/2006 - Matéria atualizada em 31/12/2006 às 00h00

| Marcos Davi Melo * O primeiro réveillon é como o primeiro sutiã, a gente não esquece. Era adolescente e a família se reunia em torno da figura de meu avô materno, um pacato evangélico da antiga igreja Presbiteriana da Rua Dias Cabral, onde virávamos o ano, envolvidos pelos cânticos de louvor e pelas orações. Escutávamos ao longe, alguns poucos rojões, que explodiam nas festas populares na Praça da Faculdade. Dali íamos direto para casa, onde comíamos os saborosos pastéis com uma fina cobertura de açúcar, que minha mãe preparava com maestria e imenso carinho, já pensando na praia da Pajuçara, então, o melhor programa para o primeiro dia do ano. Certo ano, findo o serviço religioso, tio João me convidou para acompanhá-lo no réveillon da Portuguesa, ali pertinho. Repentinamente, passamos dos versículos de Ezequiel e Mateus, dos suaves hinos religiosos para a balbúrdia do maestro Passinha, as marchinhas carnavalescas e os frevos de Capiba e Nélson Ferreira. Vi-me, bruscamente, alavancado do plácido aconchego do sagrado para a sedução inebriante e irresistível do profano. Ah, tresloucado mundo, quão exíguos são os limites entre a salvação e a perdição! Alma peregrina e titubeante, por muito tempo cultivei este hábito: virar o ano na Igreja, mas sem conseguir resistir ao apelo dos réveillons, principalmente o da Fênix, onde meu pai, homem socialmente muito recatado, comprou um título só para meu usufruto. Com o tempo, desapareceu tio João, foi-se minha mãe e os meus filhos cresceram. Este ano, dois deles, Marcel e Milena vão passar o réveillon longe e sentirei muito as suas ausências, mas me confortarei com o restante da família. A passagem de ano é uma época de recordações, de saudades, de angústias e alegrias. De ganhos e perdas. Vemos o tempo passar e como dizia Jules Petit-Senn: “O que o tempo traz de experiência não vale o que tira de ilusões”. Queremos que o ano novo chegue logo, mas queremos também que o velho nunca se acabe, como se pudéssemos parar o tempo. O tempo, este devorador das coisas. O tempo levou nossos entes queridos e a juventude, mas nos trouxe um neto e nos deixou ainda a indispensável saúde, a harmonia da família e os amigos. Que os fugazes abraços, beijos e confraternizações de fim de ano nos mantenham a esperança, a alegria, a vontade e a coragem de enfrentar as adversidades. Feliz ano novo estimado leitor. (*) É médico e professor da Uncisal.

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