Opinião
O Conde de Keyserling
| Marcos Davi Melo * Um amigo empresário, figura importante e íntima do poder, acostumado aos rega-bofes palacianos, confidenciou-me que na última cerimônia de transmissão realizada no Palácio dos Martírios, veio a conhecer uma figura enigmática, era o conde de Keyserling. O nobre representante da melhor monarquia européia pode ser um desconhecido para alguns, por isto é preciso apresentá-lo e situá-lo no ambiente em que pontificou. Keyserling é citado por Nélson Rodrigues, que o conheceu em uma festa na mansão de Walter Clark. O conde era um príncipe do espírito. De uma lucidez desesperadora. Com três ou quatro dias de Brasil, pediram a tão fino espírito que definisse o Brasil em apenas uma palavra. Exigiram do conde que em apenas uma fulminante palavra resumisse os usos, costumes, valores, sentimentos de um país que desconhecia. E, Keyserling não dizia um ?bom dia? que não tivesse um pingo de genialidade. Pensativo, aproximou-se da sacada do hotel, onde, por um momento, silencioso, ficou olhando o movimento lá embaixo, onde a multidão apresentava uma característica: todos se cumprimentavam. Percebeu o sábio, que nem na terra como no céu, ninguém cumprimentava tanto como o brasileiro. Virou-se então para a imprensa que o aguardava embevecida e proclamou: ?Já tenho a palavra!?. Os jornalistas, aflitos, apuraram as orelhas. Keyserling deixou cair a palavra como uma flor:?Delicadeza?. E, assim, em uma única e fugaz palavra, o nobre definiu o Brasil. Sabedor deste potencial do conde, meu amigo pediu-lhe que definisse Alagoas. Keyserling considerou a tarefa dificílima e pediu-lhe 10 dias para avaliar melhor a situação. Neste período viu a insaciável Assembléia Legislativa empurrar para o governo o leviano pepino dos pedevistas; viu o Distrito Industrial do Tabuleiro inundado e abandonado, enquanto vários e supérfluos monumentos se espraiavam pela cidade. Viu uma terra ricamente bafejada pela natureza, porém paradoxalmente situada entre as mais atrasadas do atrasado Nordeste brasileiro e declarou-se incapaz de resumir tudo em uma palavra. Antes de partir, todavia, o conde de Keyserling aprovou a anunciada transparência de governo pela internet e confidenciou: ?Houve desperdício e empreguismo. Farra com recursos públicos, como se o dinheiro público nascesse em pé-de-pau?. E sentenciou: ?Ou o novo governo enfrenta a realidade e muda, ou cai na vala comum do opróbrio da história que tragou todos os outros?. (*) É médico e professor da Uncisal.