Opinião
O pre�o e a dignidade
| Jenner Bastos * Há um ditado popular de cunho bastante pejorativo segundo o qual ?todo o homem tem seu preço?. Trata-se do princípio da venalidade. Segundo tal princípio, não haveria convicção ferrenha alguma que não pudesse ser comprada por certa quantia em dólares ou por algo equivalente. Uma bela Ferrari vermelha tem seu preço, uma bela casa tem seu preço, mas será que tudo tem seu preço? É possível estabelecer um preço, em termos de valor monetário, para a Mata Atlântica? Quanto vale a diversidade biológica da Amazônia? Quanto vale a vida? Kant refletiu sobre uma questão muito próxima a essa tendo concluído que no reino dos fins ou se tem um preço ou se tem uma dignidade. Há um preço quando em relação àquilo que se considere se pode estabelecer um equivalente, por exemplo, um equivalente monetário. No entanto, em relação ao que não se pode estabelecer equivalência, então aí reside um valor intrínseco, ou seja, uma dignidade. Diríamos, alternativamente, que a vida tem um valor intrínseco, ou seja, uma dignidade, e como tal não pode ser reduzida a qualquer valor monetário que seja. Há quem proteste contra o reducionismo que transforma bens naturais em meros recursos, subordinando, deste modo, a vida à mera lógica econômica e antropocêntrica da utilidade. Mas, independentemente da utilidade que as espécies possam propiciar, elas têm valor intrínseco, ou seja, dignidade. A expressão capital natural se inscreve nessa lógica reducionista econômica, pois os bens naturais passam a ter um equivalente em termos de capital, perdendo, portanto, a sua dignidade enquanto valor intrínseco e não redutível. Pode-se enfraquecer tudo isso, admitindo-se que o valor financeiro pago por um seguro de vida constitui apenas mera compensação, mas jamais como algo equivalente ao valor intrínseco da vida, pois dignidade não é redutível a preço. Vivemos em um mundo onde se compra e se vende crianças pobres para o mercado de órgãos e se pratica o tráfico predatório e criminoso de plantas e animais. Esta situação vexatória está relacionada, como sabemos, com o enorme abismo que separa as classes sociais neste País. É preciso combater a idéia explicitada pelo ditado exposto, pois não se pode apostar na corrupção da alma humana. Mas há ainda que se combater a ironia cínica expressa por um ditado similar segundo o qual ?dinheiro compra tudo até ?amor? sincero?. Que dignidade haveria num ?amor? e numa ?sinceridade? destituídas de valor intrínseco, posto que resultantes da mera equivalência da troca? (*) É doutor em Física pela ETH-Zürich, Suíça e professor da Ufal.