Opinião
Tempo e contratempo
| Cônego Henrique Soares * ?Há um momento para tudo e um tempo para todo propósito debaixo do céu. Tempo de nascer e tempo de morrer?... (Ecle 3,1s). Com estes dizeres, a Escritura quer nos ensinar que a vida é mutável, instável, passageira: nenhum momento nosso é absoluto, duradouro. Mudam constantemente as situações de nossa existência humana e, coitado do homem que se fixa somente nesta vida e nos seus valores, porque viverá sempre no contratempo, na ansiedade: ?Não é acaso uma luta a vida do homem sobre a terra? Se me deito, penso: Quando poderei levantar-me? E, ao amanhecer, espero novamente a tarde...? (Jó 7,1.4). Quanto tempo dura nossa alegria? Por quanto tempo prolonga-se nossa tristeza? Até quando durará nossa saudade? E a gostosura da presença, a doçura da companhia da pessoa amada, por quanto tempo poderemos saboreá-la? Tudo é fugaz, incerto, passageiro! É este o alerta da Escritura! Num mundo que sonha em construir palácios bem estáveis e promete segurança perene e paz duradoura, a palavra santa insiste: ?Tudo tem seu tempo!?. Não se pode congelar os tempos da vida: na alegria, pensa na tristeza e nos que estão tristes e sê comedido; na tristeza, não te desesperes: pensa na alegria que virá e enche-te de esperança! A Escritura quer nos inculcar a fugacidade da existência, a impossibilidade para o homem de alicerçar sua vida somente em si mesmo, nos seus mesquinhos propósitos; deseja nos fazer tirar os olhos do próprio umbigo e olhar para o Alto, para aquele que está no céu e é eterno: ?Eu levanto os meus olhos para os montes: de onde pode vir o meu socorro? Meu socorro vem do Senhor que fez o céu e a terra? (Sl 120). Somente nele nossos tempos terão sempre sentido e serão sempre tempos de salvação! Somente nele, venha o tempo que vier, não perderemos o rumo e a esperança e o gosto da vida! Para nós, cristãos, estes tempos humanos, tão incertos e fugazes, ganharam uma dignidade inesperada: o Filho eterno do Pai entrou no tempo, viveu a nossa vida, dando novo sentido ao nosso tempo, à nossa humana aventura. A vida é precária e incerta, mas é preciosa; o mundo é bom, nossa vida tem valor aos olhos de Deus: seu Filho entrou na nossa vida e, pela sua ressurreição, elevou os nossos tempos humanos à glória da eternidade! Tudo tem seu tempo, sua hora. Mas sejam quais forem nossos tempos, são tempos do Filho de Deus, tempos que têm gosto de eternidade, de salvação e de graça, de esperança e vida eterna! Podemos dizer: ?Meus tempos, Senhor, estão em tuas mãos!? (Sl 31,15). (*) É sacerdote e professor de Teologia.