Opinião
O caminho das pedras
| Ronald Mendonça * Por conta de um decreto do governador Téo Vilela reduzindo salários de várias categorias, esta semana Alagoas voltou ao noticiário nacional. Na última ocasião em que isso ocorrera foi na premiação da atleta Marta, eleita a melhor jogadora de futebol do mundo. Claro que a conquista é fruto de mérito pessoal angariado fora dos limites geográficos não só do estado como do próprio País. A naturalidade alagoana é mero acidente natalino. Dessa vez o bicho pegou feio, com o funcionalismo estadual em pé de guerra, invadindo repartições e fazendo de refém o subsecretário da educação. Na enxurrada, grupos que não têm nada a ver com a questão como índios, sem-terra e sem-teto engrossaram o rugido dos descontentes. Vi também em fotos de jornal as indefectíveis bandeiras da CUT. Ignoro o significado da ausência das honradas flâmulas do PT, que num passado relativamente recente costumavam marcar presença em todas as mobilizações dessa natureza no Estado. À distância, e com frouxas ligações com o Estado, enquanto patrão, tenho o inabalável sentimento de que é justíssima a indignação dos servidores. Apesar da companhia indigesta dos sem-terra e sem-teto, grupos que têm fama de vez por outra descambar para a esculhambação, o comportamento dos manifestantes tem sido exemplar. É claro que ninguém é bobo para pensar que uma medida antipática dessas iria ficar de graça. Apesar de pouco afeito aos meandros financeiros da administração pública, fico me perguntando o que teria levado o experiente núcleo político palaciano a embarcar em tão desastrada aventura. Não acredito em maldade. Como estudioso da neurologia prefiro atribuir o malsinado decreto a um blecaute transitório no bom senso. No entanto, é preciso levar em conta que membros da equipe do atual governo, ainda antes de assumir, advertiam publicamente que ?salário de servidor não era prioridade?, disparate que causou espanto e medo. O fato é que pressionado por todos os flancos, no instante em que escrevo essas notas, o noticiário geral é de suposto recuo do governo. Tudo indica que o bom senso está de volta. Nesse imbróglio, chamaram a atenção as reiteradas declarações do deputado João Lyra, adversário de Téo Vilela na disputa pelo governo. Lyra não só admite estar solidário com o funcionalismo, mas jura conhecer o caminho das pedras para se chegar às verbas que garantiriam o pagamento. A má notícia: é um segredo guardado a sete chaves. (*) É médico e professor da Ufal.