Opinião
O risco continua
HUMBERTO MARTINS * Nenhum país do mundo tem tantas opções para geração de energia como o Brasil, mas o risco de um colapso continua ameaçando o progresso e o desenvolvimento nacional. O atraso no começo de obras já licitadas para construção de novas usinas elétricas e a desativação de outras poderão provocar, em 2004, escassez comparável à que assombrou o País há cerca de um ano. Até que na segunda metade do século passado o Brasil optasse pela produção de energia hidrelétrica, a produção de eletricidade era feita em usinas térmicas movimentadas por óleo importado, na sua maior parte de propriedade de empresas estrangeiras, a maior parte inglesas. Esse modelo, impulsionado nas administrações Eurico Dutra e Getúlio Vargas (segundo período) ? 1945 ? 1954 ? consolidou-se nos governos militares, com a criação da Eletrobrás, construção de Itaipu e outras iniciativas de grande porte. O aspecto mais positivo da geração de energia em usinas hidrelétricas é o preço relativamente baixo da manutenção das geradoras, embora sejam necessários grandes investimentos para construir barragens, comprar turbinas e reinstalar milhares de pessoas cujas casas e terras são alagadas. Os aspectos negativos são numerosos, tais como prejuízos para o meio ambiente e a possibilidade de diminuição de chuvas que mantêm o volume de água nos rios, na sua quase totalidade depredados pela destruição na vegetação nativa em suas nascentes e margens. A diminuição do volume d?água na maior parte dos rios brasileiros e, conseqüentemente, nas barragens das hidrelétricas, despertou o governo federal e a sociedade, para a necessidade de outros tipos de geração energética. Por seu custo mais barato, a produção de eletricidade em hidrelétrica continuará sendo a mais expressiva, mas é preciso evitar que estiagens prolongadas ameacem de paralisação o País. O enorme endividamento externo e interno e a permanente preocupação das autoridades monetárias em ?fechar as contas? comprometem, entretanto, a execução do programa de geração alternativa de energia, mesmo depois do recente sobressalto que atingiu os brasileiros. Além da geração em hidrelétricas, o Brasil tem possibilidade de produzir significativas parcelas de energia através de usinas termelétricas movidas à gás, petróleo, biomassa (bagaço) de cana, madeira cultivada), ventos (energia eólica), marés e biodigestores, além de geração nuclear (Angra I e Angra II). A preocupação com uma nova crise energética manifestou-se com toda força no 9º Congresso Brasileiro de Energia, no Rio de Janeiro, há alguns dias: ?As eleições deste ano, a crise da Argentina e as oscilações do câmbio não estimulam os investimentos (também no setor elétrico) por parte do setor privado?, comentou o físico Luiz Pinguelli Rosa, coordenador-geral do congresso. Com os investimentos externos e internos do setor privado em compasso de espera e os investimentos públicos comprometidos pelas crônicas dificuldades financeiras nacionais, as perspectivas, no que concerne à geração de energia realmente não são animadoras. Tema de grande importância para ser debatido na campanha eleitoral que começa a esquentar. Sem energia não há desenvolvimento. Os nossos governantes precisam resolver a crise energética com mais rapidez e eficiência, pois, do contrário, o risco continua. (*) É DESEMBARGADOR DO TJ-AL