Opinião
Os desafios da f�
| Dom Fernando Iório * Dentre os mais variados anseios e desafios do mundo hodierno avulta o problema da fé. Finalmente, que é ter fé? Será, tão somente, acreditar num sistema doutrinário? Será confiar, apenas, na autoridade de alguém? Pode ser tudo isso e mais do que isso: aderir, pessoalmente, Àquele em cuja autoridade confiamos. Numa palavra: exige a fé cristã nossa adesão pessoal a Jesus Cristo em quem pomos a nossa confiança. Compromete-nos essa adesão com Ele até as últimas conseqüências. Coloca-nos diante de um nível de conhecimento que ultrapassa o plano experimental, o tangível, o sensível, o visual, o auditivo. Coloca-nos diante do compromisso com o Absoluto, com o Transcendente, com a Divindade, com a pessoa do Cristo que revela o semblante do Pai, conversando conosco. Situa-nos diante do homem, imagem e semelhança do próprio Deus no qual devemos, ao nível da fé, ver Cristo Jesus. Reconduz-nos à natureza, como teofanização das maravilhas da criação. A fé nos compromissa com Deus, com o homem, com a natureza. Nada de reducismo sobrenatural e, muito menos, de reducionismo temporal. É que a fé nem se reduz, tão somente, ao transcendente, ao sobrenatural, nem às coisas temporais e terrenas. Ela tudo abrange, quer seja sobrenatural ou temporal. Por isso, nosso compromisso social não deixa de ser conseqüência daquela fé autêntica que, mesmo com os olhos fixos no transcendente, está com os pés presos à terra, como os frutos que, ainda nas alturas, se prendem à raiz nas entranhas da terra. Portanto, ter fé é acreditar em que o Deus da vida, a Quem aderimos, nos ama e se deixa envolver por esse amor, deixando-se amar pelo ser humano. Crer, por conseguinte, é inserir-se no plano de Deus, através de um sim radical, qual o Fiat de Maria de Nazaré. Crer é acreditar no ser humano, enquanto criatura aberta à graça libertadora de Deus. Crer é empenhar-se por tornar sempre mais humano aquele que é o sujeito da história. Tudo implica em o homem descobrir-se filho de Deus e, como tal, irmão dos outros. Trata-se de um irmanar-se, criando condições para que o próximo possa ser e viver, plenamente, a sua condição humana e divina. Na América Latina é urgente e se torna importante a crença em que Jesus Cristo é a força capaz de transformar nossa realidade pessoal e social. Donde o nosso desafio: a fé exige um compromisso real com a construção de uma sociedade justa e fraterna. (*) É bispo de Palmeira dos Índios.