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Opinião

A vida segue seu curso

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| José Medeiros * Não faz muito tempo, assistimos, em Recife, a uma palestra sobre qualidade de vida. O médico palestrante garantiu que o homem está programado, biologicamente, para viver 100 anos; idade a que poderá chegar se combinados três elementos simples, que podem ser resumidos, numa fórmula mágica, em três cês: comida, caminhada e vida calma. Vida calma? Um colega que estava ao meu lado fez um comentário malicioso, afirmando que essa fórmula poderia dar certo nos anos cinqüenta, quando nasceu. Na atualidade, vive-se envolvido num turbilhão de emoções fortes e traumas psicológicos. Por isso, talvez seja melhor pensar como diz a canção popular: ?deixa a vida me levar, vida leva eu?. Estresse, colesterol, violência, ?Mac-Donald?s? e inevitáveis angústias do cotidiano, encurtam a vida. Ele me prometeu fazer um trabalho literário, em homenagem aos que nasceram na década de 50. Recentemente, recebi uma correspondência dele com o texto prometido. Não coloco aspas, porque ? com seu consentimento ? modifiquei conteúdos e retirei trechos para adaptar o trabalho à crônica jornalística. Diz assim: nós nascemos antes da televisão, dos antibióticos, das vacinas; antes da comida congelada, da fralda descartável, da xerox e da pílula anticoncepcional. Nascemos antes do radar, dos cartões de crédito, das máquinas de lavar pratos e secadoras de roupa; do condicionador de ar, dos satélites de comunicação; e, bem antes, do homem pisar na lua. Continua: nascemos antes dos direitos dos homossexuais, da mulher empresária e vitoriosa na política; antes da terapia de grupo, dos SPAs e dos flats. Nessa época, não tínhamos ouvido falar em fita cassete, video game, máquina de escrever eletrônica, corações artificiais, computadores, internet, danoninho e rapazes de brinco. Concluiu: lambada era chicotada, fio-dental servia para higiene bucal e malhar era coisa de ferreiro. Entretanto, nós nos contentávamos com o que tínhamos. Não valem comparações, porque são épocas diferentes, e diferentes são as gerações. O que sei é que a vida era prazerosa, tranqüila e preocupações bem menores que as atuais. Desde que sejam conservados elementos mínimos de saúde e de vida familiar, sem dúvida, vale a pena viver 100 anos; mesmo que sulcos de rugas enfeiem a face e que a imagem no espelho não seja tão bonita quanto antes. (*) É médico e ex-Secretário de Educação e de Saúde.

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