Opinião
Marina Calheiros
| Teomirtes Barros Malta * Maceió tem perdido importantes figuras humanas nesses últimos tempos. As de um passado relevante que se foi. Marina Calheiros era uma delas. Artista consagrada, já tendo efetuado concertos no Rio, São Paulo e Paraná, vivia quase sempre presa ao mundo dos grandes compositores, deslizando suas mãos suaves no piano, um misto de sons e beleza. Marina era uma figura original. Às vezes, um pouco aérea, trocava as palavras, dizia chistes que nos faziam rir. Coisas de artista! Mas no piano era um assombro. Lembrando-me de seu último concerto no Instituto Histórico, aqui em Maceió, vejo sua elegante figura ao piano, interpretando Brahms, Debussy, Liztz, Albeniz, Schumann e sobretudo Chopin, seu favorito. Como se pudesse recuar no tempo, parecia-nos presenciar o romantismo do compositor polonês, sua melancolia de viver longe da pátria, a Polônia, oprimida pela Rússia imperialista. Era como se estivesse compartilhando com seus amores frustrados, solidária em sua tristeza. Com tudo isso, Marina nos fazia sonhar. Que memória musical! Tocava as músicas sem olhar as partituras. Foi uma noite inesquecível! Vivia há muitos anos em nossa cidade. Viúva do alagoano almirante Álvaro Calheiros poderia morar no Rio, sua terra natal, onde residiam seus familiares. Entretanto, apegara-se a nossa terra, aos amigos que aqui fizera. Como professora de piano, com sua cunhada Hilda Calheiros, também grande pianista, formou várias turmas de alunas aqui em Maceió. Até antes de adoecer, ainda fazia recitais reunindo algumas delas de grande talento musical. No último a que assisti, eu observava seu rosto transfigurado pela emoção, ao ver o que conseguira. ?A música é a linguagem da emoção?, já dizia o compositor alemão Wagner. E isso Marina bem o compreendia. Ao término de seu curso no Instituto Nacional de Música no Rio de Janeiro, ela conseguiu medalha de ouro por unanimidade. Ultimamente, vinha usando aquela preciosa medalha, creio que por conselho nosso, suas amigas. É sempre bom recordar o que nos fez viver feliz. Como se o possível pudesse voltar. Nossa cidade nunca lhe rendeu homenagens em vida. Nem mesmo uma sala com seu nome e nisso eu falei outras vezes. Mas ela não era política! Apenas uma extraordinária artista, que Maceió teve a grande sorte de conviver. Mas, para alguns, isso não parece ser muito importante para a nossa cultura. Ainda que o artista humanize a humanidade. (*) É membro da Academia Alagoana de Letras.