Opinião
Tapa na cara
| Anilda Leão * Muitas vezes tenho ficado perplexa diante de tantos descalabros provindos não só dos nossos políticos como de outras criaturas que só pensam no seu bem-estar financeiro, esquecendo que somos habitantes de um País ainda muito desigual, principalmente se comparado com outros, de economia semelhante a nossa. Mormente aqui, nesse nosso nordeste sofrido. Assim, como aquela criança que fui e que já se preocupava com a miséria pressentida na figura de uma menininha esmulambada que pedia comida na porta da casa dos meus pais, hoje, já oitentona, ainda vejo o mesmo quadro se desenrolar a minha frente, onde quer que eu vá. Culpa de um círculo vicioso que junta miséria, falta de educação e de cidadania com a eleição de verdadeira plêiade de políticos que se preocupam, única e exclusivamente, com um jeito muito ?patriota? de inchar suas contas bancárias cada vez mais. E que se dane o povo. Há poucos dias todos nos espantamos com a notícia de que a Câmara dos Deputados cogitava em aumentar os subsídios dos nossos representantes em Brasília que, pelo que sabemos, já usufruem benesses em alto grau, entre salários e mordomias as mais diversas. Mas o que me deixou realmente estupefata foi uma notícia que veio daqui mesmo, deste nosso Estado falido e tão desgovernado, detentor dos piores índices sociais. É que está em gestação, em nossa Assembléia Legislativa, uma iniciativa que é um verdadeiro tapa na cara da sociedade em geral, a chamada pensão vitalícia para ex-governadores. Que farra, hein? Não bastasse o estado de penúria em que nos encontramos, não bastasse a seca assolando lá pelas bandas do Sertão, ainda temos de aturar essas criaturas criativas que sempre encontram um jeitinho a mais de por a mão no meu, no seu, no nosso bolso já tão dilapidado pelas sucessivas más gestões da coisa pública em Alagoas. E a educação, e a saúde do povo podem estar indo de mal a pior que eles não ligam, não estão nem aí, como se diz. Assume um novo governo, e isso é sempre motivo de esperança. Apesar de tantas decepções acumuladas em oito décadas de vida, quando vi pessoas mudarem da água para o vinho ao galgarem o poder, acho sim que podemos esperar dias melhores e mais seriedade na condução dos negócios públicos. E já que se começou mexendo no bolso dos pequenos funcionários e até dos aposentados mais humildes, o novo governador tem a obrigação moral de vetar esse projeto que medra nos baixios da nossa assembléia, essa mesma que sempre faz questão de dar as costas para o povo. (*) É escritora e atriz.