Opinião
Conselhos de Jo�o XXIII
| Dom Edvaldo G. Amaral * Por ocasião da recente visita (discutida e corajosa) de Bento XVI à Turquia, L?Osservatore Romano publicou interessante notícia, referida pelo salesiano padre Giuseppe Giorgis, pároco da Basílica-Catedral do Espírito Santo de Istambul, recordando o núncio apostólico, monsenhor Ângelo Roncalli, inesquecível para os turcos, e que foi depois o nosso querido Papa João XXIII. ?Durante seus dez anos de ministério pastoral em Istambul, mons. Roncalli soube conquistar com seus modos simples e persuasivos, inspirados em profundo sentimento de doçura, de compreensão e caridade, o afeto e a veneração de todos? ? recorda o Padre Giorgis. Mas o bondoso núncio gostava de repetir quatro breves conselhos, que servem muito apropriadamente para todos nós pastores, padres ou bispos, agentes de pastoral ou até para todos que tenham alguma responsabilidade social. São estes os conselhos de João XXIII, ainda núncio apostólico na Turquia: Omnia videre ? multa dissimulare ? pauca corrigere ? quieta non movere. Explico-me em bom português: 1º) ver tudo ? o pastor (e o líder) deve conhecer bem sua realidade, vivê-la intimamente, estar em contínua relação com ela, sentir de perto seus problemas, avaliar suas dificuldades, identificar-se com seu povo ou sua comunidade. 2º) Dissimular muita coisa ? deve fazer que não está vendo muitas coisas, não demonstrar exagerada preocupação por coisas simples e sem maior repercussão, não exagerar na reprimenda às falhas e defeitos encontrados. 3º) Corrigir poucas coisas ? com coragem evangélica, com intrepidez sem medo de perder a popularidade ou a fácil aprovação dos que estão errados, o pastor (e o líder) tem que corrigir com firmeza e doçura o que precisa ser corrigido, o que é escândalo para os bons, o que é injustiça para com os que estão com a verdade e o bem. 4º) Não remover o que está bem ? aqui é aquele sábio princípio : ?não mexer com quem está quieto?. Ou então, em linguagem futebolística (tão do agrado de eminente personalidade política brasileira: ?não se mexe em time que está ganhando?). Vezes muitas, a vanglória, uma ingênua vaidade de imprimir sua marca pessoal à ação já bem realizada por outros, fazem desmanchar o que está bem feito, destruir o que tem valor, para tentar apagar o nome de outros que acreditaram acertar no que procuravam fazer. Esses sábios conselhos, que o grande e venerado pastor, antes na Turquia como representante do papa, e depois como sumo pontífice, viveu na prática, imprimindo seu estilo pessoal de simplicidade e bondade ao supremo pontificado, podem muito oportunamente servir de guia e rota segura para os pastores da Igreja e para todos os líderes de qualquer instituição. (*) É arcebispo emérito de Maceió.