Opinião
Bio�tica e dignidade humana
| Dom Fernando Iório * Caminho numa época de grande progresso e científico, quando a tecnologia nos ajuda a superar numerosas dificuldades e deficiências. Para me acalmar, estou prelibando do andamento Allegro Giocoso do Concerto para violino e orquestra, op. 77, de Brahms. Estou à procura de unir a técnica musical do passado, sempre presente, com a nossa moderna tecnologia. Enquanto procuro trilhar o caminho do progresso científico, estou embebido no trilar do violino de Perlman. Tentativa de unir o passado sempre presente, com o presente sempre renovado que já se torna velho. Apesar de tudo, dispomos de muito mais facilidades que nossos pais ou avós. Nosso conforto é bem maior, como o ?tegmine fugi?, de Horácio. A medicina cresceu, a dor foi vencida, a expectativa de vida aumentou. Não obstante, nem todas as práticas médicas ou avanços tecnológicos podem ser considerados, igualmente bons ou éticos. Não deixam de ser, por vezes, anéticos, contrários à vida e à dignidade humana. Era a incomparável preocupação de João Paulo II, quando, angustiado, escreveu: ?a marca da nossa sociedade é o divórcio entre a ciência e a moral?. Suas palavras tornaram-se para nós um tremendo desafio diante de nossa sociedade: egoísta, erotizada, marcada por uma cultura de morte. Sou, agora, premiado com o ?Adágio? de Brahms, doce, tranqüilo, repousante, que me leva a pensar na cultura da vida. Nossa missão de cristãos é defender a vida e promover a dignidade humana. Para que isso aconteça, mister se faz uma ciência que, em profundidade, estude a conduta humana, visando a uma reflexão moral, unida à biologia e à medicina. A essa ciência damos-lhe o nome de Bioética. Prende-se esse verbete ao grego ?bios? (vida) e ?ethos? (relativo à ética). Foi o oncologista norte-americano, Van Reusselaer Potter, da Universidade de Wisconsin, o criador da nova ciência, em 1971. Portanto, é a Bioética uma ciência, relativamente, nova comprometida com a vida humana, vegetal e animal, da qual participam ? biólogos, botânicos, veterinários, médicos, enfermeiros, psicólogos, advogados, assistentes sociais, filósofos, teólogos, sociólogos. De certa maneira, existe a Bioética para respeitar a sacralidade da vida humana, criada à imagem e semelhança de Deus. Aqui bato ponto, como o maestro Beremboim, encerrando o Concerto de Brahms. (*) É bispo de Palmeira dos Índios.