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As tr�s cadelas

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| Ronald Mendonça * Dos inúmeros papos-cabeça que ao longo da vida mantive com o meu falecido irmão Robson, um deles me recorre com relativa freqüência. Psicanalista de altíssimo nível cultural, Robson esposava a idéia de que dois objetivos básicos atiçavam nossos desejos: a ?cadela da fortuna? e a ?cadela da notoriedade?. Em outras palavras: dinheiro e poder. As eleições dessa semana para o legislativo, exemplos típicos da busca pelas cadelas acima aludidas, seriam um prato cheio para a leitura compenetrada do meu saudoso irmão. Ninguém ignora o poder de um presidente da Câmara Federal, além, é claro, da fabulosa verba que administra. Independentemente desses aspectos, a luta travada pelo alagoano Aldo Rebelo pela presidência daquela Casa merece reflexões mais pontuais. Rebelo é um comunista sui generis. As léguas de distância do caricatural tipo revoltado que destila desprezo pela decadente burguesia a cada palavra proferida, o viçosense é a imagem da mansidão. Apelando frequentemente para a piedosa expressão dos crentes, ?Pelo amor de Deus?, Aldo foge mais uma vez do paradigma por não ser ateu. Por esse prisma, reforça o time de ?egrégios-comunas-não-ateus? formado, dentre outros, por Frei Betto, Leonardo Boff. O fato é que, apesar da parceria além da conta com o governo de Lula, Aldo foi derrotado por ex-aliados, leia-se PT, PMDB e (pasmem!), parte do PSDB. Como é do ramo, o alagoano não deve ter estranhado essa suposta ?tríplice aliança? de antigos ?irmãos?. Simplesmente, a despudorada ?cadela do poder? foi mais sedutora. Mas o que mais surpreendeu no Aldo, foi seu comentário de não achar prudente o PT comandar o legislativo pelo motivo de o poder se concentrar de forma excessiva num único partido. O argumento deu um nó na minha cabeça. Ouvir um comunista, em nome da pluralidade, reclamar de partido único (aliado) no comando de um País é quase como vê-lo cuspir no Manifesto de Marx e Engels. Há poucos dias, além de fortuna e poder, a ?teoria das cadelas? foi enriquecida por mais um elemento. É que numa comemoração na casa de amigos, um cidadão passado dos 80 roubaria a cena. Cabeleira branca esvoaçante, fogoso, falante, lá pras tantas, assumiria o microfone e passaria a cantar e requebrar à Mick Jagger. O velhinho parecia ter tomado litros de Red Bull. Numa pausa, um curioso quis saber o combustível que alimentava tanto fogo. O ancião respondeu sem vacilar: ?Ódio! Muito ódio!? (*) É médico e professor da Ufal.

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