Opinião
A realidade alagoana
| Marcos Davi Melo * Enquanto a Secretaria de Educação era invadida por uma turba ensandecida de grevistas, que ameaçou a integridade física do secretário, em outras pequenas secretarias a situação encontrada foi deprimente. Em uma delas, o novo secretário chegou ao primeiro dia de trabalho antes das 8 horas da manhã e o primeiro funcionário só chegou 40 minutos depois. A sujeira e a bagunça predominavam. Teve que ameaçar afastar funcionários para poder dar um mínimo de condições, inclusive higiênicas, para trabalhar. Depois, circulando pela Secretaria, encontrou uma sala refrigeradíssima, com 12 madames elegantes; umas faziam as unhas, outras as sobrancelhas, outras liam Caras, e a maioria debatia acaloradamente o último capítulo da novela da Globo. Trabalhando mesmo, ninguém. Resolveu fazer uma reforma mínima da estrutura colocando divisórias de vidro onde todos poderão ver todos. Propôs instalar uma ?Sala de Repouso? refrigerada, com televisão de plasma e cadeiras de balanço, onde as madames poderão continuar exercendo o ócio com (in) dignidade. Em outra pequena Secretaria, existiam mais de 60 cargos comissionados, mas foram reduzidos para 25 e dá pra tocar o serviço folgadamente. Dos mais de 220 servidores só se localizaram 100. É provável que nas grandes secretarias existam muitos servidores públicos trabalhando com dedicação e responsabilidade. Devem até ser a maioria, mas, pela quantidade de funcionários que existem, por exemplo, na Assembléia Legislativa ? mais de 1.800 ? e o que se sabe de gente de posses e protegida, que ganha do Estado sem trabalhar, pode-se imaginar o tamanho do buraco. Está entranhada na cultura alagoana: o Estado tem que dar empregos não só aos necessitados, como também aos privilegiados. Trabalhe ou não, precise ou não, deve faturar do Estado. O perdulário descontrole é tamanho que existem até servidores públicos da paupérrima Alagoas dando expediente em Unidade Federal poderosa. Assim, pouco sobra para pagar o servidor público que trabalha, e, nada para investir em benefícios para o resto da população, a grande maioria, que continua sem chances de sair da miséria. O tal Estado Mínimo é discurso ideológico ultrapassado, próprio do corporativismo estatal, que termina inviabilizando o investimento de recursos para o desenvolvimento econômico, que este sim, beneficia a maioria da população; hoje miserável e abandonada, sem representação e sem voz. (*) É médico e professor da Uncisal.