Opinião
O maquiavelismo essencial
| Benedito Ramos * Nenhuma sociedade está imune à experiência dualística da razão e da crença. Esta última é, com certeza, a cachaça cujo porre cria o sofisma necessário para sustentar a realidade cotidiana. É como a teológica ?esperança da ressurreição?. Colocada numa balança, a crença possui um peso dobrado. Resumindo: o homem crer bem mais do que realmente pode experimentar. Isto, posto numa sociedade de consumo e ao lume do capitalismo, que divide os homens pelo dinheiro que possui, a crença é o pilar que acode o telhado da realidade. É preciso crer em dias melhores. O Brasil vai ter a reforma agrária que precisa. O riacho salgadinho será despoluído. Não faltará alimento na mesa do brasileiro. Enfim, Papai Noel existe. ?...seja rico ou seja pobre o velhinho sempre vem?, como diz a música de Octávio Filho. Em meio a este cenário, nos arriscamos a dizer que a sociedade prefere viver personagens de si mesma e não a sua própria vida. Afinal, esta é, quase sempre, de uma realidade tão crua que este maquiavelismo essencial se torna premente para sua sobrevivência. Amar os inimigos ainda é muito pouco quando não se consegue derrotá-los. É preciso dar gáudio ao verdugo e sorrir até tombar do cepo. A verdade é cruel demais e a mentira pode ser a chave da felicidade. Já houve uma época em que se podia dizer que ?as aparências enganam?. Hoje, com certeza, as aparências é o que importa e a realidade é subjetiva. Quem quer saber a maloca que você se esconde quando o seu carro causa inveja? Qualquer sacrifício vale a fita pela finta. Parece crime hediondo a ética, quando com meias verdades se ganha lauréis. A sociedade é livre para escolher seus heróis. Vale, portanto, alguma coisa o ideário que você escolheu se a fome lhe bate a porta? Onde termina o caminho da solidão social? Desacompanhado, nem ?minoria? você é, para acudi-lo um ?órgão de defesa?. Ninguém cria uma ideologia para si mesmo. Quem não tem competência, para se fazer crer, aceita a crença dos outros. Pior é guardar-se no ceticismo e crer apenas no mito da verdade como elemento transformador. Paciência, até hoje a fórmula da Coca-Cola é um segredo e nem por isso deixa de ser tão apreciada. Não pense leitor, que esta pachorra sua em fiar-se decanato, numa sociedade interesseira como a nossa, vale coisa alguma. É preciso bem mais que se fazer douto, fora dos átrios dos compadrios. Nada mais, maquiavelicamente, correto do que conhecer os últimos atores sociais, para sobrepujar os editos. (*) É escritor e historiador ([email protected]).