Opinião
De Turim a Paris, o TGV gemeu
| Rubens Villar * Quando se vai a Itália visita-se, preferencialmente, Roma. Um verdadeiro museu a céu aberto. Veneza, a bela Veneza, um luxo para os olhos, edificada sobre uma laguna invadida pelas águas do Mar Adriático. Milão, o mundo da moda e das artes. Esquecemos de cidades como Turim. Uma metrópole, na imensa planície do Rio Pó, à sombra dos Alpes, a maior cadeia de montanhas da Europa. Nesta bela cidade, nasceu a mitológica FIAT (Fábrica Italiana de Automotores de Turim) e a Vecchia Senhora, o lendário time da Juventos, campeão Europeu, onde brilhou o famoso craque Zinedine Zidane. Aqui, bem guardado, encontramos o Santo Sudário, a mais famosa relíquia sagrada medieval, que teria envolvido o Corpo de Cristo depois de crucificado. Ele é objeto de fervorosa veneração religiosa. Vale a pena apreciá-lo no Duomo! Nesta parte da fronteira entre a Itália e a França não existem estradas ligando os dois países. As íngremes e quase intransponíveis montanhas alpinas tornam antieconômicas a sua construção. Embarco no TGV (Trem de Grande Velocidade) em direção à Paris. Os trens europeus, o Eurocity italiano, o Ave espanhol, o Msa Alemão, são admirados pela velocidade, pontualidade e precisão. Na viagem, belas paisagens, túneis, picos gelados. No fundo dos vales, um povoado aqui, uma vila acolá, com charme e qualidade de vida. De repente o trem tornou-se lento, moroso, resfolegante. Os agentes de segurança pedem que todos tomem os seus assentos. Uma vozinha lamuriosa, a todo instante, pedia desculpa pelo atrazo. Pensei numa avalanche de neve a nossa frente. Um túnel interditado. Uma ameaça terrorista. Lembrei-me dos recentes atentados em Londres. Dias antes, tinha viajado no metrô, rodeado por muitos paquistaneses, indianos, iraquianos. Em Paris, ao lado de argelinos, marroquinos, iranianos, com suas inseparáveis mochilas às costas. Era só apertar o cinto e tudo iria pelo ar. Mas estava tudo bem, a não ser àquela vozinha chorosa. Orgulhosamente só falava em francês pedindo desculpas, pardon... pardon... pardon nada de inglês, nem espanhol. Português, nem imaginar! Foram três horas de atraso e de expectativa. Chegamos à Paris, alta madrugada, vivendo as aventuras de um turista acidental. (*) É ex-deputado, ex-senador e ex- governador de Roraima.