Opinião
Almas mortas
| Sérgio Costa * Apesar da descrença e da desesperança, ainda existem brasileiros que conseguem indignar-se com a hipocrisia política. Lembro-me que o leitor Jacques Lagôa, da Folha de São Paulo, ao ver o PT se coligar com aqueles que antes repudiava, declarou em tom profético: ?Quando se vende a alma, a alma vai para o diabo?. Confesso que fico completamente perdido em meio a essas metáforas infernais. Quem seria o diabo? De onde ele tiraria recursos para comprar intangível mercadoria? Dante, que visitou o inferno, o purgatório e o paraíso, seria a pessoa mais indicada para responder a estas indagações. Arrisco-me apenas a transcrever duas breves histórias que chegaram ao meu conhecimento. Quem sabe assim encontro algumas pistas? Goethe, por exemplo, escreveu que Fausto vendeu a alma ao diabo em troca do poder. Nikolai Gógol, por sua vez, contou-nos que Pável Ivánovitch comprava almas mortas para oferecê-las em garantia ao dinheiro que tomava emprestado no banco. Concluo, então, que foi a partir dessas bem sucedidas negociações que a alma humana perdeu os cabrestos. Sabendo disso, bem que poderíamos ter criado mecanismos para proteger a coisa pública contra os ataques dos desalmados. Nada fizemos. Pior: menosprezamos a inteligência do inimigo. Resultado: quando o governo joga coalizões no mercado, a demanda alcança níveis mendicantes. Compre a minha alma, pelo amor de Deus! Mas o diabo faz uma única exigência para quem quiser ser seu amigo: matar a religiosidade da alma. E assim, sem temer os castigos da terra e os do céu, o homem se deixa levar pela sua mais marcante característica: a paixão. Aí tudo pode acontecer. Os arautos do poder, por exemplo, propagam a idéia de que as coalizões evitariam a compra de parlamentares (mensalões) para aprovar leis. Mas, indisfarçadamente, prometem distribuir cargos públicos com parentes, amigos, cabos eleitorais e, quem sabe, com concubinas dos aliciados! Na verdade, usam o dinheiro do povo para comprar e vender almas, não para garantir a governabilidade, mas para afiançar suas falcatruas. Já se disse que o brasileiro tem uma enorme dificuldade de enxergar o óbvio. Ora, quem se elege põe a mão sobre a Carta Magna e, evocando o nome de Deus, jura defender os interesses do povo. Por que então tem que se vender, exigir cargos públicos e endividar o País para poder cumprir suas obrigações? Porque as almas que deviam aperfeiçoar o nosso sistema democrático e as que deviam fiscalizar e punir estão mortas. (*) É contador