Opinião
Bailes de sempre
| Marcos Davi Melo * Não faz muito tempo Maceió já teve um carnaval dos mais animados e ordeiros. Até os anos 60 e 70 existiam orquestras em pontos estratégicos, pela Rua do Comércio e outros locais, por onde os carros passavam lentamente, com os foliões neles instalados, eufóricos e fantasiados, donde travavam batalhas de confetes, serpentinas e também de água com a multidão. Alguns amigos privilegiados juntavam dinheiro especialmente para comprar um carro velho e barato, geralmente aberto, somente para o Corso. Do Corso os foliões iam para casa, tomavam um banho restaurador e partiam para os bailes no Iate, Jaraguá Tênis Clube, Portuguesa e os grandes bailes noturnos da Fênix, onde, ainda, as matinais eram insuperáveis. Muitas paixões duradouras aí nasceram. No Corso, com o tempo apareceram a maisena e alguns espíritos de porco passaram a utilizar produtos tóxicos que maltratavam os foliões, o que junto com o preço da gasolina inibiu a brincadeira. Mas que isso, Maceió tinha um carnaval que cultivava as suas tradições e raízes. Muitos e tradicionais blocos de frevo desfilavam pela cidade e o Banho de Mar a Fantasia, que se realizava na Avenida da Paz era dos mais apreciados. Com o tempo, os hábitos foram mudando. Ritmos alienígenas e carnavais fora de época, que nada tinham a ver conosco ocuparam o espaço, apoiados pelo poder público, que ao mesmo tempo abandonava os grupos que cultivavam os nossos valores e tradições. O surgimento do Pinto da Madrugada foi uma reação espontânea dos alagoanos que gostavam de carnaval e nunca desprezaram as suas raízes, que teimam em ter uma identidade cultural. Não é apenas um bloco carnavalesco bem sucedido. É antes um bloco de resistência cultural, voltado para as nossas tradições e a nossa cultura popular, mas também é o que mais se parece atualmente com a grande comunhão social vista naqueles bailes de outrora; onde os amigos se encontravam e confraternizavam espontaneamente, com muita alegria, paz e harmonia. Tempos nos quais se saia de casa certo de que se voltava, mesmo que cansado e exaurido após as exaltações das folias de Momo. Eu ouso dizer, com otimismo de folião: o Pinto da Madrugada faz um autêntico carnaval e um baile ao ar livre na maravilhosa Pajuçara, como naqueles bons tempos, que façamos de conta que voltaram, mesmo que na forma efêmera e fugaz do pré-carnaval de Maceió, que nisto o carnaval é como a vida: curta, cheia de ilusões e de fantasias. (*) É médico e professor da Uncisal.