Opinião
Os ap�ticos na sociedade moderna
| Dom Fernando Iório * A apatia deixa, de certa maneira, a sociedade menos comunicativa. É que o apático não se alimenta, espiritualmente, de nada, a não ser de si mesmo, de seu próprio pessimismo. Não procura o apático a busca de coisas novas; não procura vencer os obstáculos do caminho. Está seu espírito impedido de abrir-se para as múltiplas direções da vida. Por isso, vive como um sofredor. Contorce-se, desesperadamente, frente às poucas possibilidades de opções que encontra, em volta de si mesmo. Não avança nas mudanças que lhe dariam mais liberdade de lutar para renovar-se na caminhada. Vive o apático envolvido na aridez emocional, envolvendo-se numa vida afetiva irreal e espectral. O verbete ?apatia? guarda sua origem no latim ?apatheia?, que pode significar ausência de lesão orgânica, ou mesmo carência de paixão, de emoções. Sendo uma inibição psíquica, é a apatia aquela espécie de freio ou lentidão dos processos psíquicos, em sua globalidade. Tem ela a ver com uma dormência generalizada de toda a atividade mental. Em graus variáveis, essa inibição torna o indivíduo desinteressado, desmotivado, com dificuldade em suportar as tarefas elementares do cotidiano, com grande perda na capacidade de tomar qualquer iniciativa na vida. Se assim é, o rendimento intelectual se minimiza e a atividade amorosa é desprazerosa. Carece o apático de força necessária para tocar adiante a vida. Em nada progride, porque nada empreende. A apatia, quando vivida em grandes proporções, encontra-se bem próxima do sentimento de vazio, que é a situação extrema da desvalorização de si mesmo. Mesmo observando o que acontece, ao seu redor, não encontra o apático objetivos para qualquer ação. É como se sua consciência estivesse envolvida por um véu cinza e fosse o mundo visto através de espessas nuvens. É diferente da pessoa que se encontra, apenas deprimida, que sofre, mas deseja sair da situação. O apático tem a tristeza como uma atitude de ser, alimentando a falta de apetite de viver. Apatia é viver sem raízes, tornando o mundo relacional cada vez mais empobrecido. Necessita, entretanto, de pessoas amigas que, cotidianamente lhe mostre razões para viver e conviver com os outros. Não deixa de ser importante uma assistência psiquiatra e mesmo necessário aquele diálogo com um sacerdote conhecedor da Psiquiatria Pastoral. (*) É bispo de Palmeira dos Índios.