Opinião
Palavra falada
GILBERTO DE MACEDO * A fala é a voz humana enunciada. Para dizer. Para expressar um sentimento, um desejo; um pensamento, um estado de espírito. Como tal, atende a um imperativo humano, uma necessidade interior. Daí a razão da notável lingüista Júlia Kristeva ter dito: ?Falar é falar-se?. E é logo, forma de comunicação mais comum, de todas as pessoas organicamente capazes. É um atributo do ser. Palavra sonora. Agradável, quando o som manifesta-se com naturalidade, harmonicamente enunciado. É o caso da voz mansa, suave, convidativa. Voz que aproxima, acolhedora e acolhidora. Voz que une. Que não incomoda o aparelho auditivo dos circunstantes, e que tem conotação afetiva agradável. O som é positivo. O ruído é negativo. O som é suave. O ruído é áspero. Daí a importância da palavra falada como ato fundamental da existência. Abre as portas, conforme o tom da voz agradável; e, pelo contrário, cria obstáculos, se em tom áspero. A mesma frase, conforme a voz, tem sentido oposto. Comunica ou incomunica. É que a voz terna leva melhor ao entendimento do que se ouve. Facilita o diálogo. Já a voz ríspida leva ao contrário; distância. Além da fala geral, comum, do dia-a-dia, de todas as pessoas ter modalidades particulares, ligadas a atividades especiais que, exige um vocabulário e uma voz peculiares. Assim, como veremos a seguir. Fala maternal, da voz suave, da pura ternura de mãe, ao ninar o bebê. Voz divinizada, totalmente desprovida de qualquer traço de mágoa ou culpa. Fala amorosa, sussurrante da declaração de amor dos amantes, em ?completa solidão como diz o poeta Vinícius de Moraes. Enunciada com mavioso tom, voz que nunca se cansa de ouvir. A voz do amor nunca envelhece, e nem jamais envilece. É sempre desejada. Fala médica, do tom de voz do clínico, acolhedor e reconfortante, desde o primeiro momento desse encontro especial, que é a relação médico-paciente. Fala que tem importância, essencial para a confiança do doente, inclusive para a cura. A respeito já dizia o filósofo Esquilo: ?As palavras são um remédio para as almas que sofrem?. A alma do médico fala. Fala pedagógica, da voz do mestre ao se dirigir aos discípulos no curso da exposição do tema com vistas a estabelecer a admiração e a amizade, pois Goethe já advertia: ?Só se aprende de quem se ama?. Fala estética, da voz do artista, seja na arte cênica, quando a dicção dos atores é fundamental para a percepção do auditório. E, sobretudo, é a voz maviosa no canto, voz que encanta aos ouvintes. Voz melodiosa. Falas da oratória, da voz eloqüente do advogado no debate jurídico ao expor com argumentos o seu ponto de vista; a voz do político, em tom claro, direto e incisivo para convencer o público assistente. Pois que, num e noutro caso, como diz ao historiador inglês Macaulay: ?O objetivo da oratória é a persuasão?. A voz conquista. (*) É MÉDICO