Opinião
Milagre do amor
LINCOLN CAVALCANTE * Nascido que sou num 12 de junho, em 1921, poderia assustar-me o número 81, o da progressão aritmética, de razão 1, no somatório das parcelas anuais da vida. Estaria na reta do temido êxito letal. Seria entender-me apenas sob um raciocínio linear. Mas, para mim, anuidades tantas são apenas medidas cronológicas, que mal dizem das etapas da nossa vida. Prefiro contá-las às vintenas, como marcos da vivência e sofrências minhas. Assim, chego, hoje e tão somente, aos 4 x 20 + 1. Estou passando um pouco da 4ª idade; não há por que temer a imputação de octogenário. Ao contrário, cada vintena é um marco vitorioso de vivência. Aos 20, na 1ª idade, era o Cadete 902, da 2ª Cia de Infantaria da Escola Militar, no Rio de Janeiro, nela ingresso como 6º colocado entre 1.723 candidatos disputantes das 200 vagas, em concurso nacional de admissão. Se, quatro meses após, julgaram-se incapaz definitivamente para o serviço militar e para qualquer trabalho, por sofrer de moléstia contagiosa e incurável, foi um erro de diagnóstico ou deficiência da medicina de então, tanto que não se consumou o terrível prognóstico do incurável. Cheguei fácil, feliz e fagueiro, à 2a idade. Aos 40 anos, casado, pai dos meus três filhos, diplomado em direito, sucessivamente deputado estadual (suplente convocado), advogado no foro de Alagoas, promotor público de 2a Entrância, curador de menores, promotor da Justiça Militar do Estado (também por concurso) e, sobretudo, o de maior significado: diplomado pela ESG, no Rio, e delegado da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra em Alagoas durante 25 anos. Aquele inválido da Pátria, o ex-cadete do Realengo, vencera a revanche em sua vocação militar. Atingi, saudável e contente, a 3a idade. Mesmo antes dos 60, fiz-me professor da Universidade Federal de Alagoas (concurso em três cátedras e doutorado), nas disciplinas Direito Administrativo, Mercado de Capitais, Instituições Financeiras e Estudos Brasileiros. Simultaneamente, secretário de Estado em três governos estaduais. Consintam-me esclarecer. O rol dos títulos, cargos ou funções não têm intenções curriculares, nem seja entendido como imodéstia. Valem-me e sejam aceitos como prova testemunhal deste feliz sobrevivente. Chego, agora, aos 40 x 20 + 1. Nesta 4a idade, sou e estou membro do Conselho de Administração da Chesf, com mais 17 anos de exercício dos mandatos trienais, reeleito que fui seis vezes. É outra prova pública de como venci a presumida invalidez. E, em termos privados, confesso-me capaz para o exercício físico e fisiológico no uso de todos os órgãos do corpo humano... inclusive aquele! Bendito, pois, este 12 de junho de 2002, véspera do Santo Antônio, meu protetor, a quem fui consagrado na Igreja Matriz de Capela. Nascido nesta data, Dia dos Namorados, é dupla a razão para ufanar-me ainda ser um deles. Casado sou, há 57 anos, com a primeira namorada, a queridíssima e linda Nicinha filha da professora que me ensinava as primeiras letras. Além de primeira namorada ? gosto de repetir-me e repetir-lhe: minha única mulher, sob todos os aspectos... e ela acredita nisso! Eis um milagre do amor. (*) É PROF. APOSENTADO, MEMBRO DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO E DA ASSOCIAÇÃO ALAGOANA DE IMPRENSA