Opinião
F�cil, como tirar doce de crian�a
| Carlos Eduardo Müller * Quando somos crianças e estamos descobrindo palavras novas, por vezes, usamo-las em momentos descabidos. Isso acontece principalmente se elas nos soam bem aos ouvidos. (O Luís Fernando Verissimo gosta muito de ?defenestrar?, porque além da sonoridade é um privilégio próprio da janela, somente na hora em que se põe algo para fora, pela janela, é que se pratica o ato de ?defenestrar?.) Mas, os usos inoportunos também são realizados por adultos. Nas transmissões de futebol não só jogadores como também narradores e comentaristas incorrem em deslizes. A partida, que estava 1 x 0 para o Internacional contra o Barcelona, não poderia jamais ter seu placar ?revertido?, visto que nunca depois disso seria 1 x 0 em favor do Barça (ainda bem! Viva o alagoano Adriano!) Vira-e-mexe e surge um gaiato dizendo que sua vida deu um giro de 360º e mudou completamente. Se rodou 360º então o sujeito parou exatamente onde estava antes. Houve também um prefeito que em sua campanha de reeleição disse: ?Quando assumimos o governo estávamos à beira do abismo. Hoje, passados quatro anos, podemos afirmar: ? Demos um passo à frente!? Pobre cidade! Não faz muito que cheguei a esta receptiva e bela Maceió, foi em 2002. Naquele ano houve eleição para governador. Já tendo mudado meu título eleitoral, ouvi diversas vezes, nos programas políticos, que havia sido feita uma revolução no setor público do Estado, a Educação melhorava, as finanças estavam saneadas, o canal do Sertão era uma realidade, um funcionário público jamais cometeria suicídio por estar com salários atrasados e aquela cantoria toda. Muitos de nós saíram por aí repetindo estas belas orações, elas embalavam nossos sonhos! Os três grandes tenores que puxavam o coro, hoje estão fora de sintonia. ?Aquele que já foi? continua a bela cantilena, o ?outro que agora está? canta ao contrário do que já disse antes, e ?o maestro? está envolvido na eleição da presidência do senado e nem ouve os sapos de cá. Por que toda esta mudança? Por que não estamos mais com Alice no País das Maravilhas? De qualquer forma, fomos enganados! Ou somos crianças e ainda não aprendemos bem o significado daqueles verbetes (contas em dia, educação maravilhosa, canal do Sertão) ou somos tão tolos quanto alguns comentaristas, narradores, jogadores de bola (menos o Adriano, este é um gênio!) e outros que falam sem saber o quê. Se a população daquela cidade tivesse defenestrado seu prefeito, talvez não tivesse ido para o abismo! (*) É professor da Esamc.