Opinião
Nega��o man�aca
| Ronald Mendonça * Desde o início da semana tento organizar idéias para comentar sobre o carnaval. Na expectativa de ganhar inspiração, esperei pelas crônicas de Eduardo Bomfim e Lysette Lyra abordando o tema. A crise no País está maior do que eu imaginava. Perplexa com a crescente criminalidade, dona Lysette, com a autoridade da experiência, fala de cátedra, oferecendo sugestões, sem deixar de cutucar a pasmaceira oficial. Bomfim, com a erudição de costume, discorrendo sobre ?Ideologia?, foi definitivo. Se pessoalmente perdi referências, todos lucramos com a transcendência dos textos. Aliás, nessa sexta o leitor da Gazeta foi premiado. Se não bastassem os aludidos artigos, a charge de Ênio Lins, satírica e bem-humorada, tem tudo a ver com o momento. O detalhe do MST fazendo barulho com o bombo está demais. (Afinal, qual o exato papel do MST num protesto de professores?). Para coroar, dom Edvaldo Amaral, ?fechou? a página com meridiano artigo sobre as polêmicas origens da comemoração, doutrinando sobre carnaval versus calendário religioso católico. Depois do bispo, somente muita cara-de-pau faz com que eu insista com esse assunto. O fato é que o carnaval aí está. Embora apenas uma reduzida parcela da população participe dos festejos, o País se recolhe. Não adianta chiar. Detalhe curioso é que das chamadas ?quatro festas do ano?, rigorosamente, o carnaval é a única em que não há nada para se comemorar. É o prazer pelo prazer. No Natal, por exemplo, apesar da descaracterização, o nascimento de Cristo ainda é lembrado. Com efeito, além da ênfase ao convívio familiar como aspecto proeminente, há uma figura central, histórica, respeitada até pelos incréus. (No carnaval é Zé Pereira). Essas peculiaridades natalinas mexem com o emocional, inclusive pela proximidade do novo ano, que acena com perspectivas de promissoras mudanças. Sociólogos, historiadores e curiosos vêm registrando as mudanças nas formas de brincar o carnaval. Festas em clubes sociais, nem pensar. Aqui e acolá, num mero exercício saudosista, alguém se lembra de ressuscitar bailes perdidos em algum lugar do passado. A tradição reza que quanto maior a crise melhor o carnaval. Por isso, não surpreende, em nossa Maceió, o aparente paradoxo do sucesso do bloco Pinto da Madrugada. Com efeito, atolado num caos poucas vezes visto, o alagoano da classe média, numa espécie de ?negação maníaca?, esquece os desmantelos e se esbagaça na cachaça e na folia. (*) É médico e professor da UFAL.