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Opinião

O carnaval

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| Lysette Lyra * Os carnavais de meu tempo eram brincadeiras que só tinham espaço para a alegria. Raramente havia acontecimentos dramáticos durante a folia. Até os marginais procuravam comportar-se, para não serem punidos e terem que permanecer na cadeia durante os dias momescos. As festas se desenvolviam nos clubes ou nas ruas. As fantasias eram obrigatórias: caprichadas para os bailes e mais simples para os corsos. Serpentinas, confetes e lança perfumes não faltavam nos dois ambientes. Lembro-me como me agradava organizar os meus disfarces. Imaginá-los e confeccioná-los, às vezes meses a fio, empolgada, querendo surpreender e encantar os participantes da folia. Adorava transformar-me em determinado personagem histórico ou usar os trajes típicos de qualquer país longínquo. Por alguns instantes parecia adquirir uma outra identidade e isso me divertia. As festas eram um verdadeiro desfile de fantasias, cada qual mais linda que a outra! Havia prêmios, e como era difícil, para a comissão julgadora, eleger a mais bonita e a mais original! Os salões regurgitavam de foliões acalorados, dispostos a brincar até o amanhecer. Alguns se excediam na bebida e, às vezes, usavam o lança perfume para cheirar, procurando aumentar a animação. Mas quando se tornavam inconvenientes, eram convidados a se retirar, pela diretoria do clube. Nas ruas, as pessoas montadas em carros abertos, faziam batalhas de serpentina e, nos últimos anos, havia o mela mela. Orquestras, localizadas no perímetro do corso, executavam as músicas carnavalescas. Todos cantavam os consagrados sucessos. Brincavam-se os quatro dias de carnaval e, ainda, havia ?assaltos?, à tarde, na casa dos Nogueira, em Saúde, na de Abelardo Lopes e na Fábrica dos Paiva, em Rio Largo. Era uma distração tão pura na sua essência! Hoje tudo mudou: as fantasias foram trocadas por abadás sem graça, pula-se atrás de trios elétricos e as músicas inocentes de antigamente foram substituídas por axés, cujas letras pobres de inspiração, são às vezes até, indecentes. As pessoas se divertem cercadas por cordões de isolamento, protegidas por seguranças para evitar a violência. ?Os Seresteiros da Pitanguinha? e a Prefeitura tentam fazer ressurgir os velhos carnavais. Até que os marginais andam mais quietos, talvez porque queiram brincar, também, e, quem sabe, se limitem a fazer alguns ?pick-pockets? nos trocados e nos celulares dos foliões? Ou, então, estejam bastante ocupados assaltando as casas dos ausentes em férias, ou os hotéis dos turistas, como é a moda atual. (*) É escritora.

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