Opinião
A �ltima aula
| Enildo Marinho Guedes * Morrer é trágico. Ensinar com a própria morte é sublime. Terra, água, céu, ar, festa, amizade, segundo sábado de janeiro abaixo do equador. Tudo pronto para um grande encontro ? trinta anos após o ciclo da formação Champagnat. Orações ecumênicas, poesias, canções, mãos dadas, olhos e faces sorridentes. Uma queda, um grito, um coração que, por teimosia, deixara de bater no peito do professor Givaldo, lecionando-nos a última aula: ? Meus alunos diletos, vocês sabem... Parte da vida está sob os nossos controles, a outra parte desliza alheia à nossa vontade. Parte da vida é formada pelo mundo do encantamento ? sonho, esperança, crença, utopia, paixão, amizade, amor, vida eterna. A outra parte é formada pelo mundo do imponderável ? dor, miséria, egoísmo, traição, desencontro e, também, o imperativo categórico mais implacável e cruel: a interrupção de uma vida singular. Não precisam se amedrontar, viver e morrer são apenas dois pólos de um mesmo espaço de tempo. Morre-se a cada instante em que se vive e só se vive morrendo. Não há motivo para tristezas. No mundo dos encantos, a morte não tem vida. Apenas a vida é manifestada enquanto o tempo passa. Não morremos. Viemos todos das estrelas e voltaremos para elas. Temos a mesma idade do universo e somos tão eternos quanto ele. Não morremos. Herdamos a vida e passamos o DNA para nossos filhos. Estivemos presentes quando surgiu a primeira vida e estaremos, amalgamados por atavismos, na geração do tempo dos eleitos. Não morremos. Herdamos uma cultura, banhamo-nos no lago da linguagem, compartilhamos as consciências, imprimimos a nossa presença, fecundando as marcas da nossa presença no mar da história. Ah! Saudades... Quero que as tenham muitas. Mas aquela saudade gostosa de nossa convivência, de nossos momentos felizes, de nossos encontros. Vivenciem a saudade, com a mesma alegria de quem espera um amigo. Vivenciem a saudade, com a mesma doçura de quem espera um grande amor. Vivenciem a saudade, com a mesma candura de uma mãe gestante. Que a saudade seja a manifestação da certeza da minha eterna vida entre vocês. Pois a verdadeira presença é aquela que reside no coração. (*) Foi aluno da turma Marista 1976.