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�rf�os do grande outro

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| Ronald Mendonça * Como não poderia deixar de ser, o esquartejamento público do menino João Hélio, no Rio de Janeiro, dias antes do carnaval, provocaria uma onda de indignação que se espalhou pelo País. Ainda bem que a sociedade não está completamente indiferente, embora pessoalmente acredite que estamos caminhando para um estado de inteira anestesia. Sem qualquer intenção apocalíptica, tenho o mau presságio de que dentro em breve a comoção por crimes bárbaros ficará restrita ao ambiente familiar das vítimas. Tidos como ?caixa de ressonância da sociedade?, os dignos representantes do povo instalados em Brasília deitaram discursos dos mais variados tons. Os mais moderados ? e aí se incluem, além de parlamentares, o probo ministro Bastos, da Justiça, e o próprio presidente Lula ? recomendaram não se tomar nenhuma atitude ?precipitada?, sob o argumento de que a emoção da revolta quase nunca é boa conselheira. Condição já bem digerida, político adora pegar carona nas desgraças alheias para faturar prestígio e votos. No oceano de bravatas inconsistentes e inexeqüíveis, louve-se a fala do deputado Fernando Gabeira, dando um freio de arrumação na surrada idéia de que a escalada da violência teria como causa principal a desigualdade social. Com efeito, setores da intelectualidade gozam ao retirar a culpa dos marginais e colocá-la no regaço de outrem. No momento, a única unanimidade é que desse jeito é que não é possível ficar. Certamente que reduzir a maioridade penal para 16 anos soa tão lógico, nos dias de hoje, como aceitar que esses mesmos rapazes tenham maturidade suficiente para votar. Sem pretender entrar na polêmica da pena de morte e da prisão perpétua, o fato é que ?becaristas? e palpiteiros diversos costumam defender a ?certeza da punição? como fórmula mágica de inibir a criminalidade. É uma balela. Penas leves não amedrontam. As multas de trânsito comprovam isso. Com valores acima de quinhentos reais, hoje se pensa duas vezes antes de desafiar uma barreira eletrônica com velocidade além da estabelecida. De outra parte, a psicanálise ensina que sem alguém respeitável como referência, a indigência moral no país só aumenta. Há quatro anos assumia o poder formal um grupo que se dizia pai e mãe da moralidade e da ética. A busca por um ?grande outro? fez-nos apostar que haveria um padrão comportamental a ser admirado e seguido. Frustrando a todos, o tempo mostraria a diminuta dimensão desse ?grande outro?. (*) É médico e professor da Ufal.

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