Opinião
Alertas do velho rio - Editorial
Enchentes periódicas sempre foram uma referência de relação do homem com o meio ambiente. Quando corretamente entendida, a cheia é benesse; quando menosprezada, torna-se desastre. Toda a fantástica cultura e opulência legada para a história pelo antigo Egito foi produto da correta interpretação das cheias do Rio Nilo, em função das quais se organizava o cultivo nas áreas alagadiças (e ricamente adubadas em função das enchentes periódicas). Aqui mesmo, em Alagoas, o Baixo São Francisco foi palco da centenária prosperidade do cultivo do arroz ? cujo sucesso ímpar se deu em função da correta convivência do rizicultor com a periodicidade das cheias do Velho Chico. A partir da introdução da primeira das grandes barragens de Paulo Afonso, nos anos 50, e com o fim dos alagamentos periódicos, feneceu a rizicultura na região. Há dias, o nível do Rio São Francisco voltou a subir e pegou desprevenida toda a população de suas ribeiras. Não pode ser considerado novidade, pois as comunidades urbanas (ao contrário dos rizicultores e pescadores) nunca souberam conviver adequadamente com esta ocorrência corriqueira da natureza dos rios: as cheias. Se nos tempos das enchentes periódicas isso já era problemático, imaginem agora, meio século depois de se ter perdido essa referência natural. Hoje, quando as barragens sangram, desastres se espalham pelas margens. Deveria alertar às autoridades o exemplo sofrido causado pela cheia da semana passada, sobre os grandes riscos de se mexer num ecossistema tão aviltado e delicado como o do Rio São Francisco. As autoridades do governo brasileiro deveriam mirar os transtornos causados por simples aberturas das comportas das barragens como um sinal de alerta para a necessidade de se revitalizar o Rio São Francisco antes de serem iniciadas aventuras como a chamada ?transposição?.