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Carnaval, seguran�a e simulacro

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| Izabel Brandão * O carnaval permite que todo mundo se vista como quer, ou como gostaria de ser visto pelo outro. E é nesse espírito que vemos nas ruas e clubes desde mendigos, diabos, fadas, duendes a reis, rainhas, super-heróis e divindades de todos os escalões, circulando. Estive em Pernambuco durante o carnaval com um grupo de foliões alagoanos e, juntos, seguimos os rituais de Momo: o sábado do Galo da Madrugada, o Recife Antigo, Olinda e sua irreverência, enfim. Caminhando, pulando, dançando e cantando os maravilhosos frevos pernambucanos, ou simplesmente acompanhando os Maracatus rurais, os blocos e as bandas. Tudo sem violência (ou quase), pois o bloco, talvez, mais organizado do carnaval pernambucano foi o da polícia, que circulava o tempo inteiro, tornando as aparências mais seguras. Isso foi bom. Mas algo muito curioso chamou minha atenção durante os dias de folia. Havia um contingente imenso de foliões fantasiados com as roupas camufladas que a gente sempre associa à polícia, ao exército e, agora, à Força Nacional. Vi desde bebês de colo a musculosos gays vestidos com shorts, bermudas, calças e camisas camufladas. Alguns carregavam legendas: ?soldados de Jesus?, ?FBI? e os mais engraçados com um ?Puliça? gravado nas costas de suas camisetas, jaquetas e bonés. Havia até equipamentos suporte como cacetetes, metralhadoras e aparelhos de escuta, além de rádios de brinquedo. Curiosa fantasia essa. Fiquei me perguntando sobre o sentido desse desejo da população de fantasiar-se como soldados e agentes da polícia. Sondei de alguns colegas suas opiniões e penso que houve um certo consenso entre nós: talvez isso indique o grau de descrédito dos instrumentos públicos de segurança que cuidam de nós no cotidiano das nossas cidades. Se até bandidos se travestem de polícia (estamos cansados de ver, pela televisão), porque o cidadão comum não poderia também? Isso parece representar o fracasso da credibilidade de um setor do serviço público que jamais poderia sofrer esse tipo de desautorização. A farda policial, a meu ver, não deveria ser utilizada irresponsavelmente. Esse uniforme deveria servir para distinguir o cidadão comum daquele que cuida de nós e zela pela nossa segurança. A força do simulacro que a fantasia representa num espaço anárquico como o do carnaval serve apenas para mostrar que essa parcela da sociedade perdeu algo da sua autoridade, e isso é assustador. Sintoma, talvez, de que a imagem da corporação esteja precisando de um resgate que lhe restitua o devido respeito. (*) É professora da Ufal.

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