Opinião
Mortandade de pescado
| Marcos Carnaúba * Na lida com o meio ambiente sempre me questionei sobre as razões de mortandades de peixes nas lagoas Mundaú e Manguaba, na Rodrigo de Freirtas-RJ, na de Patos-RS e nos açudes do sertão alagoano. Nas lagoas regionais as causas eram atribuídas, por pescadores, aos efluentes de usinas lançados in natura nos cursos d?água, e até ao governador que, de noite, adentrava nos canais em canoas transportando venenos para acabar com o sustento de milhares de famílias que da pesca sobrevivem. Quando presidente do Instituto do Meio Ambiente (IMA) observei que mortandades ocorriam nos períodos de moagem, e quando as usinas estavam paradas, o que as excluía da responsabilidade direta que lhes era atribuída. Coincidência, ou não, mortandades ocorriam, também, em outros Estados em datas próximas o que me levou a suspeitar de um fenômeno mais complexo que poderia justificar os eventos, assunto que permanece em minha mente sem ter tido tempo de pesquisar. Na proximidade dos dois equinócios ? 21 de março e 23 de setembro ? quando o Sol corta o equador celeste e a Terra registra igual duração do dia e da noite, incide maior luminosidade sobre a matéria orgânica depositada no fundo dos lagos e lagoas que sofre transformações, tende à superfície, consome o oxigênio da coluna d?água, os peixes sobrenadam tentando abocanhar o ar, morrem por asfixia e podem ser consumidos sem problemas. É de domínio público a disposição de efluentes nos corpos hídricos que se depositam no fundo de rios, lagos, e lagoas, sejam eles oriundos de indústrias como, também, de lixo, resíduos agropecuários e esgotos domésticos. No caso dos açudes sertanejos a física explica o fenômeno que ocorre imediatamente após as chuvas de verão sob quedas bruscas de temperatura, quando as águas superficiais se resfriam tornando-se mais pesadas e descem impulsionando para cima a que estava no fundo. Esse movimento ascendente revolve a matéria orgânica ali depositada em equilíbrio que vem à superfície consumindo o oxigênio dissolvido, ?embebedando? os peixes que aparentam abocanhar o ar e morrem por asfixia. Quanto ao episódio que ora atinge os peixes de criatórios no Rio São Francisco, se estavam sadios sem fungos nas brânquias e pele, atrevo-me a descartar a presença de agrotóxicos, ou de outros produtos químicos. Sufocação, por desequilíbrio de oxigênio durante a cheia, é a causa mortis a ser pesquisada, antes de os cearenses dizerem que os nordestinos de cá estão envenenando a água que eles querem transpor para lá! (*) É engenheiro civil e consultor.