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A galinha dos ovos de ouro

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| Ronald Mendonça * Caio e Maria Clara, meus netos, começaram a abstrair conceitos. Na realidade, já de algum tempo eles captaram, através de exemplos práticos, os significados de ?egoísmo? e ?generosidade?, dentre outros. Apreciador de fábulas, sempre que possível discuto com eles as alternativas doutrinárias de textos de Esopo e Fedro. Loucos por bichos, Caio e Maria viajam embevecidos, enquanto o avô queda-se fascinado. Não é fácil explicar os preceitos morais que ?A galinha dos ovos de ouro? encerra. Complicado até para a compreensão dos adultos, como fazer com que crianças de 5 e 3 anos digiram a cega ambição humana, presente na história, que culmina com o sacrifício e a necropsia da extraordinária ave? Dividido entre a fantasia e a realidade, eis que começam a chegar extratos do que consegui receber como assalariado durante o ano de 2006. De cara, constato que a soma dos ganhos de um ano de trabalho como professor da Ufal é a metade do que fatura em um mês um nobre deputado, estadual ou federal. Nada contra que os honrados representantes do povo embolsem mensalmente o que amargos docentes universitários não ganham durante um ano. Aliás, sobre o tema, sintetizou certa feita um astuto deputado: ?Ainda se recebe pouco se avaliados os sacrifícios e as responsabilidades do legislador...?. Nesse sentido, a obstinação em negar aumentos aos professores, enquanto se propõe duplicar os salários dos deputados, apenas ratifica a falácia de que o País não sobreviveria sem os últimos. A sensação de boi de piranha continua ao examinar os estragos que mensalmente o ?leão? do IR (o governo também curte fábulas) provoca nos contracheques. Pior: graças a fontes extras, muitos teremos ajustes adicionais de impostos. Ironicamente intitulada ?galinha dos ovos de ouro da nação?, é mero detalhe o progressivo declínio financeiro da classe média. Todos sabem o destino dos impostos. Não obstante, deveríamos encarar como missão, como questão de honra da classe média, continuar financiando, sem chiar, o mensalão, os sanguessugas, as contas no exterior, as obras superfaturadas, a propaganda oficial, os carrões, as casas de veraneio, as propriedades rurais e toda sorte de caprichos, mordomias e sinecuras instaladas nos três poderes. Deus haverá de nos dar forças. Por fim, quando nada mais restar, esfolem rápido as nossas entranhas e arranquem-nos de vez as tripas exauridas e os ovos imprestáveis! (*) É médico e professor da Ufal.

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