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A vida medida em copas

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FERNANDO FIÚZA * Copa é tempo de balanço e projeto para brasileiro. Pode-se medir uma vida em Copas, ou cajus, como faziam nossos índios, e não necessariamente por uma volta da Terra em torno do Sol e 365 e meia em torno de si. Uma vida medida em Copas traz pêlos, depois pêlos brancos, de uma para a outra. Uma criança nasce numa e fala na outra, amores morrem, outros ganham corpo, uma etapa escolar ou curso de faculdade são concluídos, patrimônios se desfazem, cidades e países são moradores e deixados, governos se elegem, se reelegem ? ou dançam. As Copas mudaram ? só não o tempo que se separa. Houve um futebol que nos chegam mumificado em fotos ? de antes da guerra; depois em filmes arranhados ? a época dos grandes bailados; por último em videoteipe colorido ? o ?futebol máquina, marketing, marcas. É nesse ainda, só que mais acelerado, em que nos (des)encontra-mos. Câmeras por todo o canto, em todos os ângulos, são vigias alertas que tiram a autoridade do juiz e desmascaram a malandragem do jogador. Fica a verdade, mas uma verdade que não queima, só se queixa. Rivaldo foi multado e o juiz coreano jamais voltará a apitar em Copa ? mesmo em seu país. Mas se o intervalo de tempo que separa uma da outra não muda, o horário de vê-la, sim. Um jogo de madrugada ou bem cedo não é assistido, pela primeira vez, sob a leve embriaguez da cerveja octanada pela ansiedade, mas com a cabeça ainda com o resto de sonho, o corpo nos lençóis, sem água fria na cara, sem o cheiro do café. Será um jogo dormitado e esquecido ? como é o visto embriagado em demasia. A outra maneira de assisti-lo é sob a lucidez cristalina do primeiro café ? o escuro que ilumina. Será racional e taquicardíaco ao mesmo tempo. Tem-se uma visão crítica do jogo enquanto a caixa dos peitos bate forte ? no ouvido, mas por dentro, em silêncio para os outros. Nos gols do Brasil o grito sai ganido, grave, rouco ainda do descanso da noite. As bombas são tímidas, úmidas de sereno. Pela primeira vez um jogo é visto num desses dois Estados desde que a vida pôde ser medida ? aberta e fechada ? em Copas. Ainda em andamento, que lições se insinuam dessa baliza temporal, que balanço fazer, que plano é possível? ? Melhor, impossível, que o impossível só é possível em planos. Um dos balanços é que essa Copa não balança ? não há samba antes do meio-dia e se passa numa época de queda ? até o mais alto ruiu, e em dobro. Uma época modesta, chã, sem sonho, apesar do horário. O último sonho acabou em ruína poluída por carros e baterias de cádmio dos telefones celulares ? os dois pilares em que se assentou o sonho cínico neoliberal. Os insetos que nos acordam e explodem são invisíveis, driblam radares e raio-x, estão lanchando ao nosso lado. Um dos planos é que o homem reconheça o seu lugar na natureza ? da molecular à cósmica -, baixe a guarda, seja modesto, calce ?as sandálias da humildade?, como queria Nelson Rodrigues, e não tênis de salto alto ou de espessa plataforma, se quiser sobreviver, senão, sobreviverá em clone adaptado a um ambiente diverso e hostil. A grama guardada numa enorme gaveta embaixo da arquibancada é um sinal verde. Essa Copa revela ainda um anacronismo: os grandes times europeus, onde jogam craques de todo o planeta, são cidades flutuantes que diluíram a antiga noção de nação. Isso leva o jogador a desligar-se de um nefasto nacionalismo guerreiro, mesmo que a guerra aqui seja codificada e metafórica. Uma das cenas mais ridículas é o close nos jogadores mascando o hino nacional com mandíbulas retesadas, narinas dilatadas e veias salientes. Esta copa largou o copo, companheiro de mais de 70 anos. Ele vai ficar como uma aventura no Oriente. Mas na próxima, o copo volta ? grande, cheio de cerveja ? na Alemanha. (*) É POETA E DOUTOR EM LITERATURA

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