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N�o existe povo sem festa

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| Dom Fernando Iório * Revelam as festas, de forma expressiva, a cultura e as idéias de um povo. Hoje, nas culturas tecnológicas, dominadas pelo espírito da produção e do desenvolvimento, retorna a ganhar atualidade a questão da festa como meio de libertação da escravidão do trabalho e busca de caminhos para a liberdade. Atualmente, são inúmeras as motivações das festas nas diversas culturas. A primeira dentre tantas é propiciar aquele necessário descanso entre as tarefas agrícolas ou industriais. Com efeito, a monotonia do trabalho se quebra com a festa que leva consigo uma mudança de atividade e de horizonte. Não há negar: essa alternância entre trabalho e festa é essencial à condição humana. Através desses contrários, realiza-se o ser humano como indivíduo cultural. Destaca a Bíblia esse caráter humanista das festividades que libertam o homem e a mulher da escravidão do trabalho e da produção (Êxodo 23,12; Deuter.5,13ss). Serve, assim, o descanso de alívio e estímulo para se regressar ao trabalho com mais estímulo e vigor. Entretanto, não representa a festa, tão-somente, uma interrupção do trabalho e um descanso, senão também a plenitude do prazer, do êxtase, da exaltação, de alegria incontida: a vida que corre por um leito sereno, transborda e explode em manifestações de alegria, de exultação. É a partir dessa experiência de louvação, que o povo vibra, dança e canta em torno da colheita abundante, das primícias do rebanho que se multiplica. É o povo que participa da alegria da vida que nasce e renasce em sua forma explosiva e arrebatada. Esse elemento da festa, presente em todos os povos, não está, também, ausente da Bíblia. Não obstante, por diversas vezes, não deixa o êxtase da festa de trazer algo perigoso, em virtude dos cultos pagãos, nos quais a embriaguez, a licenciosidade carnal e a dança orgiástica eram consideradas como mediações religiosas para alcançar a fecundidade. O pecado do Povo de Deus vem, sempre por sempre, relacionado com a celebração dessas bacanais. Nem por isso das festas judaicas foram excluídos o êxtase e a plenitude da exultação. No fim das contas, a significação mais profunda das festas foi sempre a de dar sentido à vida comum do trabalho. Por isso, sempre tiveram as festas fecundo caráter religioso de aproximação da Divindade. A festa não deixa de ser uma promessa escatológica ? aquela alegria antecipada do Reino, que será a eterna festa sem fim. Fé sem festa é uma atitude de crença sem vida. (*) É bispo emérito de Palmeira dos Índios.

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