Opinião
Era uma vez
| Mirian M. Canuto * Em meus tempos de criança, já bem distante, gostava de ouvir histórias infantis. Eram conhecidas como histórias de trancoso. Um misto de fantasia e realidade que chegava à assombração, a depender de quem as contava. Tinham em comum a punição dos maus e, encerravam todas, com um final feliz. Com direito até a: ?Entrou pela perna do pinto e saiu pela perna do pato. Senhor Rei mandou dizer que contasse mais quatro?. Achei que já havia ouvido na infância todas as histórias do ?arco da velha?? espantosas e inverossímeis: ?abrir a barriga do Lobo Mau e tirar a vovozinha?. Hoje, com a maturidade que só o viver atribui aos humanos, vejo em nosso País, um cenário hilário. Era uma vez, um País que deveria mudar em 4 anos. Nunca lembrei-me tanto do Pinóquio! Nunca vi tantos narigões! Era uma vez, um País que priorizaria a educação! Mas Alice não viveu no País das Maravilhas, e sim no País dos mensaleiros e dos Severinos! E Ali Babá, conhecíamos com 40 ladrões. Hoje, são milhões! Era uma vez, um País que criou a CPMF para minimizar os problemas da saúde e a nossa gente continua doente! E as verbas? Essas sim, desapareceram num toque mágico das varinhas de condão. E as Cinderelas? Era uma vez, o tempo em que as princesinhas voltavam dos bailes à noite, e ainda com um sapatinho de cristal. Hoje, a sociedade vive cada vez mais enjaulada, tentando livrar-se dos assaltos, seqüestros, assassinatos que se iniciam do nascer do sol ao anoitecer. Era uma vez, um País belíssimo, com imensas florestas, onde em nossa imaginação pueril habitou a Branca de Neve e os Sete Anões. E, esta floresta, a maior do planeta, de conservação imperativa para o equilíbrio ecológico, é destruída dia-a-dia. Não pelos lenhadores que um dia salvaram Chapeuzinho Vermelho, porém por gananciosos ratazões. E, como pequenos polegares, parecem não serem vistos por nossos governantes. Mas as histórias têm a marca do seu tempo. Hoje são trágicas e perversas! Agora não se abre o abdome do Lobo Mau, mas o solo forma uma cratera e arrasta sete vidas à morte! E nós brasileiros adormecemos ouvindo contos mirabolantes. Não! Não adormecemos; a violência já não nos permite descansar. O som inquietante das balas perdidas e de tantas outras irresponsáveis nos assombram e atormentam. E, a sociedade brasileira não vivencia um conto de fadas, mas, entrou sim, no conto do vigário, acreditando numa sociedade mais justa e dirigentes mais responsáveis. (*) É médica e empresária de Turismo.