Opinião
A crian�a e seu futuro
| Milton Hênio * Participei no último dia 3, na cidade do Rio de Janeiro, de mais um encontro da Academia Brasileira de Pediatria e a grande preocupação de todos os seus membros é com a difícil situação da criança brasileira nos dias atuais, submetida a tantos agravos físicos e psíquicos. E qual será o seu futuro? O Brasil não investe na criança que é a sua riqueza. Isso é triste. Ela enfrenta, então, inúmeros obstáculos. Vejamos alguns: milhares delas nascem todos os dias em zonas desprovidas de serviços adequados à educação e a saúde; crescente instabilidade das relações familiares acarretando cada vez mais filhos angustiados e nervosos; a miserabilidade; o crescente aumento de crianças nas ruas; a prostituição infantil ocasionando o nascimento de milhares de crianças sem um lar decente; a falta de afeto em milhares de crianças que vivem em lares desajustados. Sabemos, atualmente, que dos 3 aos 6 anos a criança grava para sempre todos os momentos felizes ou infelizes de sua vida e que isso irá influenciar no seu comportamento futuro. Nós sabemos que o filho depende, para desenvolver sua vida orgânica e psíquica, dos cuidados que receber e que seu desenvolvimento psíquico tem como base a relação entre ele e seus pais. Assim, o pai e a mãe deverão satisfazer as necessidades afetivas da criança considerando o importante papel que essa relação existe entre ambos. Desde a dependência quase absoluta do bebê, até a independência relativa do adolescente, em todas as etapas do desenvolvimento da criança, há uma necessidade imperiosa de uma boa convivência afetiva da criança com os seus pais, para que ela fortaleça sua integridade, sua identidade e sua personalidade. Assim, todas as atividades, todos os gestos, todos os exemplos, todas as atitudes dos pais vão influenciar na edificação do futuro da criança, permitindo que ela se transforme em um adulto feliz ou um indivíduo problemático na sociedade em que vive. Daí, assistirmos todos os dias pela televisão um imenso contingente de menores delinqüentes, de marginais de todas as idades, frustrados, angustiados, sem sentido de vida. Pois bem, todas essas crianças filhos desses lares, em geral, perdem a sua auto-estima e crescem com modificações de seus temperamentos. Umas são tristes, medrosas; outras são tímidas ou, ao contrario, agressivas. À medida que vão chegando na fase da puberdade e da adolescência, começam a enfrentar os seus conflitos interiores e crescem sem bússola, sem comando, explodindo de formas as mais variadas aos encontros da vida. (*) É médico ([email protected]).