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Opinião

Sobre o hediondo

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| Anilda Leão * Os dicionários definem bem claramente o termo hediondo: vicioso, sórdido, repulsivo, pavoroso. Pois bem, para não me estender sobre o que está acontecendo no resto do mundo, onde as guerras fratricidas ainda persistem, e cada vez mais terríveis, quero me deter no que está ocorrendo aqui mesmo, bem perto de nós brasileiros, que estamos virando reféns dos bandidos. Hoje, mais que nunca, rouba-se e mata-se impunemente. A vida humana parece ter perdido qualquer valor. Os crimes são, muitas vezes, cometidos na proximidade de delegacias e órgãos policiais e os meliantes saem andando tranqüilamente, sem se sentirem ameaçados. Quando são presos, pagam uma fiança, ou nem isso, e esperam o julgamento em liberdade. E a justiça? Nossa justiça brasileira tem sido comparada, muitas vezes às tartarugas, o que acho uma injustiça feita aos quelônios. Os processos se arrastam indefinidamente, fazendo crescer a sensação de impunidade, e há sempre uma brecha na nossa caduca legislação penal de forma a facilitar o trabalho dos chamados advogados de porta de cadeia. Nossa justiça só ganha agilidade quando se trata de aumentar os salários dos juízes e demais pertencentes àquele poder, como vimos recentemente. Enquanto a justiça dorme sobre os processos, a criminalidade vai atingindo proporções cada vez maiores. E fica a nossa sensibilidade machucada por verdadeiras chacinas que vem se repetindo até mesmo em plena luz do dia. Roubos, balas perdidas, assassinatos, incêndios em ônibus, seqüestros, trucidamento de jovens e crianças é o que se observa em nosso cotidiano, sem que tenhamos a quem apelar. As delegacias, abandonadas pelo poder público, os agentes sem viaturas para cumprir sua missão e os presídios mal construídos sendo palco de rebeliões cada vez mais violentas. Uma das minhas maiores preocupações de avó sempre foi o tipo de futuro que será herdado pelos meus netos. Disse Santo Agostinho que o futuro ainda não existe, mas o presente somos nós que o criamos. Com o que estamos vendo na atualidade, que esperança poderemos ter em relação ao porvir? Se o presente é uma formação da consciência humana e essa consciência se acha tão deturpada, só há uma atitude a tomar, por aqueles que ainda crêem no lado bom da humanidade, que é a de dirigir todos os esforços para legarmos um mundo menos pior para os nossos descendentes. E que Deus nos ajude. (*) É escritora, poeta e atriz.

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