Opinião
O latim e a camisinha
| Ronald Mendonça * Aguardado no Brasil quando oficializará a santificação de Frei Galvão, para muitos católicos o Papa Bento XVI é um dos homens mais cultos de tantos que já sentaram no trono de São Pedro. Antes de ser escolhido o chefe da Igreja, o cardeal alemão Ratzinger construiu sua biografia como um dos mais importantes auxiliares do falecido João Paulo II, exercendo com eficiência o difícil papel de vigilante da fé cristã. A função de guardião do catolicismo, segundo vaticanistas e outros palpiteiros, exige do ocupante, além de minucioso conhecimento dos pilares do cristianismo, destemor e senso de autoridade. Foi assim que o ?Pastor Alemão? pôs um ponto final nesse modismo apelidado de Teologia da Libertação. Com efeito, pinçando passagens bíblicas, seus seguidores queriam impor a curiosa idéia de cumplicidade entre Cristo e Marx. Quem sabe, um seria até a reencarnação do outro. Assumindo o vácuo e sem o carisma do antecessor, Ratzinger faz o que pode para mostrar serviço. Nem sempre é bem compreendido. Dias desses, visitando um antigo campo de concentração nazista, surpreendeu o mundo ao perguntar em voz alta onde estaria Deus que não viu aqueles desmantelos. Ora, ora, se o chefe supremo da Igreja não sabe, imagine nós. Noutra ocasião, um comentário infeliz sobre Maomé quase que dá pânico. De fato, a incontinência verbal de sua santidade causaria profundo mal estar nos muçulmanos. Preocupado em não atiçar ainda mais a ira sagrada da brigada dos homens-bomba, a diplomacia da Sé apressou-se em desfazer o ?mal-entendido?. Intransigente em relação ao divórcio e ao uso da camisinha, agora Bento XVI quer fazer uma viagem ao passado ressuscitando o latim nas cerimônias católicas. Nos seus sonhos, inclui os cantos gregorianos, sem dúvida belos, mas apreciados apenas por uma minoria, não necessariamente de devotos. Abro parêntesis para dizer que assisti a muita missa em latim. Na minha visão de criança, achava-a bonita, apesar de quase incompreensível. No íntimo, sempre suspeitei de que alguns celebrantes enrolavam a língua e não diziam nada. Hoje, aluno ? de fracas luzes ? de latim do ínclito professor Aloysio Galvão, fico admirado que o papa demonstre interesse pelo idioma-mãe. Daí a introduzi-lo nas celebrações católicas é outra história. Do mesmo modo, há cada vez menos espaço para condenações de cunho religioso às possibilidades de um segundo casamento. Quanto ao uso da camisinha, sem comentários. (*) É médico e professor da Ufal.