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Quando chove no Sert�o

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| Milton Hênio * O drama da seca castiga o Nordeste há muito tempo. 45 milhões de sofredores. Eu era criança e ouvia meu avô falar que a seca em nossa região alimentava os políticos. É realmente uma tristeza o sofrimento desse povo à espera da chuva. A seca chegou. Nem uma nuvem no céu. O açude secou, a plantação mirrou, o gado morreu e a fome apertou. O sertanejo espera a chuva como a mulher que vai dar à luz espera o filho. Assim como a criança que acaba de nascer traz alegria e esperança, a chuva que cai tem o mesmo efeito para o pobre nordestino. Dizem os estudiosos que no subsolo nordestino há água suficiente para mais que o dobro da população. Poços, barragens e açudes podem ser construídos. E o que falta para cessar a angustia desse povo? Enquanto não ocorrem as soluções, o sertanejo espera ansioso pela chuva. Eles reclamam que falta açudes suficientes que segurem a água da chuva quando cai. Quando o céu anuncia a chuva e os primeiros pingos começam a cair, tudo muda no Sertão. A terra ressequida, poeirenta, fica nova, sorridente. Muda o cheiro da terra e sua aparência, Logo muda a vegetação e surge um belo verde. Mas sobretudo muda o homem, o batalhador do sertanejo que passa a sorrir. Mesmo sem encharcar o chão a chuva tão esperada sempre deixa sinais de vida. Mas é pena, logo foi embora. E o drama continua. Então serão muitas as mulheres com suas latas vazias, enfileiradas na beira dos açudes recolhendo um pouco do tão precioso líquido. A fila das latas e das mulheres é sinônimo de solidariedade entre elas. Os pobres da água sabem partilhar também a água. Cada família poderá pegar uma ou duas latas conforme o numero de filhos. E todas correrão para plantar o milho para que a festa de São João não morra. Verão quente. A terra arde como fogo. Crepita. Quebra. O mato range e vira carvão. O céu está limpo, nem uma nuvem. O sertanejo sofre. Que desilusão. Também por fim, na quieta madrugada, vão-se as aves em tristes revoadas. Tudo é tristeza, tudo é sofrimento no sertão nordestino. E o coração do sertanejo continua com otimismo sempre a espera de soluções que não chegam nunca. Esperar é viver. A fé que eles têm em Deus é impressionante. É preciso porém dar um grito no corpo social desse Brasil. É superar a cultura individualista que só fazem vitimas e devolver a certeza de que as pessoas, mesmo pobres, terão vez e chances de encontrar a felicidade. A união dos governantes e do povo poderá concorrer com projetos grandiosos que façam essas pessoas sofridas voltarem a sorrir e continuarem amando a sua terra sem precisar deixá-la em busca de um outro destino. (*) É médico ([email protected]).

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